Sem Internet
(por J.Matias de Oliveira)
Primeiro que a integralidade deste texto estaria comprometida em um século sem computador nem Internet. O distinto leitor talvez o encontrasse subscrito numa folha de papiro tão comum aos tempos de quando o velho Machado escrevia para a Tribuna do Rio de Janeiro. O fato é que cortes de energia acontecem nas melhores residências, dos melhores clientes (para tudo, menos pagar em dia), porém nos piores dias. A pena-tinteiro era a preferência maior do Fernando Pessoa, e séculos depois para alguns como Monteiro Lobato também o seria. Da maioria dos escribas contemporâneos não se ousa imaginar discorrer essas mal engajadas palavras sem o auxílio do teclado, mesmo aquele dos tec-tecs românticos à la máquina de escrever Olivetti de um Nelson Rodrigues, Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos, dentre outros jornalistas que o tempo engoliu e jogou-nos somente a parte que foi tocada pelo teclado e não materializada em outra forma senão nos livros que deixaram. Foram-se os teclados formato Olivetti, ficaram as palavras e bilhões de escribas virtuais ainda dependentes de blogs, notebooks, Internet e outras torturas da temporalidade volátil nesse mundinho mais ou menos.
Várias vezes pensei, diante do mesmo computador (minha tortura e meu salvador), que os tempos modernos são nada mais que um armistício para a sem-que-fazeria. É divagando em poucas horas de abandono das atividades externas que passo neste bendito meio multimedia sem ver a chuva escorrer pelo mundo afora, sem notar os pingos que caem. Nesses momentos tem-se a impressão de que os séculos passados foram regados a produções massivas de vinho, espetinhos de animal e festas, muitas festas, para suprir a falta das pequenas confraternizações individuais que se dá entre as paredes azuladas do orkut e estas de cimento e tijolo que cercam o quarto solitário.
Imagino-me sem internet, sem computador e sem luz, e a vaga luz bruxuleante da lamparina acesa sobre o papiro fazendo contornos de sombra ao rés do papel. A pena de minha caneta-tinteiro escorre avidamente encaixando palavras perdidas nos dicionários e expressões advindas do meu cotidiano na corte de um rei tirano, desses de contos de fada. Escrevo para ninguém. Porém, escrevo, escrevo, escrevo. E as palavras soltam-se como estas que vão se soltando aqui e agora, sem objetivo, assemelhando-se em parte às rotineiras rodadas de café de que Balzac se utilizava a cada noite para abastecer seu robusto currículo de títulos concebidos pelos roncos do estômago e furos do bolso de trás das calças. O cara escrevia para comer, como pode isso no século XXI?
Em certo momento, paro de escrever essas linhas pretensiosas no papiro, amasso e ponho todo o trabalho fora, no lixo. Do restante faço picotes ao tamanho dos três dedos, indicador, maior-de-todos e catapiolho. De um escrevo recadinho para o Maurício, meu chegado dos tonéis de rum ali da tabernaria. E o moleque auxiliador vem pegar, disposto a umas pratas a mais no calção sujo. Dez minutos depois, a resposta. Hum! O viado não quis vender 12 copos por dez cruzados reais. Rapidamente, outro bilhete vai pelo moleque. E recebo a resposta, que conduz a outra. E outra. E mais outra.
Dona Amélia da faxina na igreja barroca entra na jogada, e em vez de bilhetes utilizávamos as folhas do papiro inteiras. Cada um com a sua, coletando mensagens, transcritas sempre após o nome de um e de outro. Havia uma folha específica para cada contato. Seu Maurício vai em duas folhas, com respostas deles e minhas seguidamente, assim em fileira. A certo momento, D.Amélia pede licença para reescrever não só em suas folhas de recados particulares, mas também, e ainda, no contato entre mim e Maurício. Estabeleceu-se uma rede de moleques que ligavam nossas residências a nós próprios, e as interligavam fazendo contatos e convites às casas das redondezas. Agora, três ou quatro faziam o serviço, cobrando algumas pratas pela entrega e recebimento das folhas.
Por um dissenso de organização ou não, os moleques começaram a se enganar nas folhas de recados. Entregava a de Maurício que ia para Fernanda para Amélia que queria receber de Eduardo. Uns diziam que se tratava apenas de confusão no recebimento e entrega, outros eram da opinião de que se pagava por aquele absurdo. Quer dizer, ao se ouvir a palavra “absurdo” nem todos concordaram, nem tantos sorrisinhos apareceram nos cadernos de recados que já iam em cerca de 20 contatos cujo título no começo de um certo caderno havia inscrito “Vila Del Rey”. Os mais das outras folhas comunitárias tiveram acesso às da comunidade que se formara, e resolveram nomear a sua como “Vila de São José Del Rey”.
Rodavam os recados, de casa em casa. Os que ousavam sair das casas eram para locais pré-combinados através das folhas, o qual o taverneiro ou dono de outro estabelecimento já sabia de antecipação, se não diretamente, indiretamente pelas bisbilhotagem de folhas clandestinas. Foi nessa que souberam os clandestinos por fora da rixa entre os da Vila Del Rey e o pessoal da outra. Descobriram até mesmo que pretendiam mudar o nome de “Vila Del Rey” para “Discípulos Del Rey na Vila Abençoada”. Alheios a tudo, os jovens enamorados contaminados pelo amor romântico trocavam sonetos de Camões e Shakespeare por suas folhas particulares (elas também caindo nas mãos de oportunos), e logo reivindicaram uma folha comunitária para seu amor franco tornar-se cada vez mais público. E criou-se a folha “Namorados de Del Rey”. Não a única. Os taverneiros queriam trocar informações sobre os devedores de bebida nas esquinas de cachaça espalhadas pela Vila com a folha “Cobradores e taverneiros: uni-vos”. Depois, a réplica, “Devedores e sinceros: pague-se quando puder”. As fofocas estavam em moda, e Dona Amélia da igreja barroca separou uma resma inteira de papiro para “Mitos e Fatos na Vila Del Rey Atual”. A rede de moleques crescia, a produção de folhas também.
Uma semana após meus pensamentos pessimistas sobre viver num passado onde não houvesse Internet, regado a vinho suspeito e literatura barata, estava agora encharcado de cadernos e mais cadernos que circulavam toda a Vila Del Rey, os povoados vizinhos e, talvez, até a corte e a abrangência de metade do Estado. El Rey, o rei de fato, sabe-se por intermédio de cortesãos, já possuía seus cadernos de recados para a família, os pares e integrantes da casta maior do reino. Os mais corajosos arriscam as cabeças em dizer que El Rey possuía várias identidades entre os cadernos de recados dos servos e comuns do povo. Ora mulher, ora homem. Encontros inusitados com ambos. El Rey, El Safado?
Que vida. Penso agora em rasgar meus caderno e com eles minha identidade nas trocas de folhas comunitárias. Ora, pois já não se tinha distinção das comunitárias e individuais. A cada mensagem, a sensação da devida interceptação por todos que conheciam e sabiam da existência de minha identidade nos cadernos que circulavam a vila. Muitos são os pedidos por se coadunar e transformar aquele num mesmo caderno de recados e mensagens, um coletivo. Aos montes, como que por convites de Fulano e Sicrano. A vontade de rasgar os cadernos e voltar ao tremeluz da literatura de lamparina me tenta. Porém, não penso nisso agora. Continuo lamentando sob a noite abafada pelo quarto fechado a ausência de um contato virtual com o resto do mundo.
(Joaseiro.com/jotamatias.com)
a folha do pé de manga sacudiu e disse: só vai cair um saprico…
Como se bate palmas em texto? Bem deixo minha opiniao. CLAP CLAP CLAP CLAP BRAVO!!!!!!!!!