Por Andreína Vieira
Genialidade, alucinações, história, política, cultura e religião. Todas estas palavras destrinchadas em suas dilatadas semânticas, observadas criticamente, e inseridas numa época crivada por outra, compõem a peça Santa Joana de George Bernard Shaw. Representada a partir de 1923, nos Estados Unidos, e presente nos palcos londrinos no ano de 1924, foi tal obra dramática a responsável pela escolha de Shaw como Nobel de 1925. Muitos estudiosos e críticos literários a consideram ao lado de Pigmalião uma de suas melhores peças de tese.
Precursor do Teatro de Idéias e feroz crítico não apenas teatral, mas de todas as coisas que dissessem respeito ao social, político e cultural de uma Inglaterra e Europa bélicas; na iminência da primeira guerra e após este incidente fatídico. Saint Joain surge num contexto cujas devastações econômicas e morais fazem-se visíveis apesar do país no qual o autor se encontrar participar do bloco dos vitoriosos.
Uma peça que retrata um fatum histórico analisado de forma ainda não procedida. A Joana tomada por vozes, figura da Idade Média regida pelos desfragmentos territoriais e pela Igreja Católica internacionalista, se reveste de soldado para defender a coroação de Carlos, o Bastardo, tendo ela o poder de dar à França governo e fronteiras. Nem Shakespeare nem outro escritor ou pensador olhou Joana como destemida, visionária e grande estrategista bélica, chegando a realizar feitos semelhantes aos napoleônicos, comportando-se com a impetuosidade dos temerários césares.
Entretanto, a natureza deu-lhe corpo de mulher, massa humana passiva dotada de atrativos intitulados como feminilidade. Exatamente por não ser homem as atitudes joaninas eram intoleráveis. Ela fugira aos moldes da pirâmide social a muito já solidificada, pretendia abalá-la e talvez quem sabe até rearranjá-la de acordo com seus princípios.
Quando afirma ser protegida pelas Santas Catarina e Margarida, sendo pois enviada de Deus, devendo somente a Ele satisfação dos atos cometidos, Joana D’arc se compromete seriamente com a instituição religiosa. Auto-afirma individualismo (aqui entendido por valorização do pensar, agir e sentir próprio, algo mais filosófico e não egoísta) num período marcado pela ausência do eu. Havia feudos e, sobretudo, um Deus intermediado pela Igreja Apostólica Romana, porém nenhum vestígio de seres que pudessem atuar distante destes altares.
Os santos dela apesar dos nomes não eram os mesmos do catolicismo; o seu caráter, hoje, até podendo interpretá-lo como homossexual (na análise é termo incabível), subvertia o estereotipo feminil; apesar de analfabeta e pouco dada às atividades intelectuais, um retrato de classe, pensava a política e religião vanguardista, pois seus ideais de luta foram, gradualmente, sendo consolidados no continente europeu.
Assim é descrita a personagem medieval levada por Bernard Shaw aos teatros do ocidente. O autor dotou cada cena de um acontecimento distinto: cena I, Joana pede permissão ao capitão de Baudricourt para ser soldado e conversar com o Delfim sobre suas vozes, elas a pedem justiça à França; cena II, a moça encontra Carlos, o Delfim, e roga-lhe licença para bater Orléans; cena III, ela encontra Dunois e consegue encorajá-lo no intuito de lutar contra os ingleses; cena IV, Cauchon (Igreja medieval) e Warwick (Nobreza/ Inglaterra) conversam sobre a ameaça de Joana; cena V, a Donzela vê-se solitária em suas aspirações; cena VI, Joana é julgada pela Inquisição; epílogo, cena onírica onde todas as personagens presentes na vida bélica de Joana se fazem presentes.
A peça, dividida em seis atos e um epílogo não contém as ações de luta, coroação, morte da protagonista, sendo apenas mencionadas nos diálogos subseqüentes. As conversações predominam, as personagens querem falar, impondo a si e a instituição a qual representam pelo poder da voz. Elas se revelam em seus incansáveis diálogos, são precisas, mas não fáceis. Raro deixarem palavras subtendidas ou metafóricas, o autor brinca com as verdades e defesas (muitas não individuais, porém imersas nas profundezas de sistemas políticos ou organizações ideológicas) de cada, acrescentando-as doses do mais britânico humor negro. Ao longo da resenha as descrições exaustivas da peça e persongens não serão consideradas, pois como teatro de idéias julgo que o central não se insere nas atitudes pequenas e sim no universal ou conjunto de ideologias exaladas por cada persona existente no texto.
(Acompanhe o desenvolvimento da peça nas partes que seguem à publicação deste artigo)
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