Continuação da série Bernard Shaw em Santa Joana em 4 partes. Publicamos Joana Soldado, Joana Feiticeira e, por fim, Santa Joana:
SANTA JOANA
Por Andreína Vieira
O curioso epílogo foge de toda estrutura realista da peça até a cena VI. Já se passaram vinte e cinco anos desde a condenação de Joana à fogueira; a antiga herege, agora tem as acusações a seu respeito perdoadas perante o Papa e a Igreja Apostólica Romana. Seus juízes, não mais vivos, são excomungados e acusados de corruptos. Shaw esquematiza todas as personagens que sofreram a presença ou interferência de Joana nas suas vidas em cena, são espíritos mortos e vivos apresentados num sonho de Carlos, antigo Delfim. Eles saúdam Joana pela sua conquista, admiram sua personalidade guerreira e se desculpam por algum transtorno a ela causado.
Não há como eles esconderem a admiração profunda sentida pelas atitudes da moça, mas este mesmo sentimento é embaraçado à incompreensão de saber conviver ao lado dela. Joana perdoada pelos eclesiásticos católicos também será séculos depois considerada santa. O autor faz deste epílogo algo surreal, faz estranhos tempos se confrontarem e deixarem evidente a protagonista o quanto ela é bem quista estando morta, assim pode ser adorada, ter honras e saudações. Viva, independente, da época seja o século quinze ou vinte, mesmo outorgada santa será incômoda, pois suas atitudes permanecerão de um ser visionário e revolucionário. Nenhum tempo comporta Joana ou seres a ela semelhantes sejam eles Che Guevara, Gandhi, Lênin, Conselheiro ou Beato Lourenço. As mega instituições precisam destas grandes personalidades caladas, mortas em corpo e lembranças vivas nos livros, memórias do povo, na história ou no extremo de virarem produtos comercializados nas canecas e camisetas, numa época distante de George Bernard Shaw, mas próxima de nós.
E como o disse Shaw através de sua personagem:
Ó Deus, que fizeste esta bela Terra, quando estará ela preparada para receber os Teus santos? Quando, ó Senhor, quando?
Santa Joana é um grito, de dor e indignação, pois tivemos revoluções na técnica, na filosofia, ciência, artes, mas as ações de toda uma massa social (incluindo opressores e oprimidos) permanecem vazias de significado maior: o valor humano, sua liberdade de expressar-se como indivíduo dotado de determinados saberes. Mas o grito é de esperança, também, pois joanas irão nascer enquanto não existir liberdade e mudanças tiverem de ser feitas no âmago de uma dada estrutura política, cultural ou humana. Porque um ideal estranho não deve despertar medo, sobretudo, desejos de amalgamar, compreender ou perpetuar.
Joaseiro.com
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