Manoel Monteiro e a função do Novo Cordel

21 09 2008

Em 20 de setembro último, foi dada voz a um dos mais produtivos poetas populares da atualidade: Manoel Monteiro, em entrevista ao Diário do Nordeste. Manoel é conhecido em todo o Brasil pela suas opiniões aferradas sobre a função do Novo Cordel: educar, informar e criticar. Diferentemente dos tradicionais, rejeita a poesia matuta por achá-la forçada e pretensiosa em suas inflexões nominais e verbais (“barrer”, “pru modi”, etc) com o mote de registrar o falar matuto, e também conserva em sua retórica e produção literária um tom crítico com que aborda sob novos olhares velhos estigmas dos cordelistas, a exemplo da exaltação às figuras de Lampião e Padre Cícero. Sobre eles, destaco trechos da entrevista concedida ao Diário do Nordeste:

Sobre Lampião e os Cangaceiros:

“Os mitos não são a minha praia. O meu cordel analisa a historia do ponto de vista real, comparando valores. Eu não acho que os cangaceiros são diferentes dos bandoleiros de hoje. Isso em todos os sentidos. Foram bandidos da mesma forma.”

Sobre o Padre Cícero:

“Padre Cícero merece da parte do meu cordel muito mais críticas do que elogios. Aliás, os historiadores também estão fazendo uma revisão da vida de Padre Cícero. O meu cordel não tem o hábito de criticar. Tem o hábito, sim, de ser construtivo. É pretensioso. Ao ponto de refazer a história do Brasil. Porque, geralmente, a história é contada pelo olhar do vencido e critica o vencedor. Padre Cícero aproveitou-se do suposto milagre da hóstia ensangüentada com o sangue de Cristo. Acho que o cordel não deve contar mais essa história. Isso seria perpetrar, endeusar, um mito. Impossível defender essa idéia nos dias de hoje. Procuro, com meu cordel, cumprir essa missão, ou seja, contar uma nova história. O cordelista de hoje tem a obrigação de ser crítico e não contribuir para a perpetuação de falsos mitos.”

“Foi um homem que deveria ter escolhido outra profissão. Os milagres de Padre Cícero só funcionavam quando seu partido político ganhava as eleições. O padre Cícero chegou…. Bem, acho que essa não deveria ser a nossa conversa, mas o que posso fazer, já que você é quem está dirigindo essa entrevista? Acho que Padre Cícero quando fez, por duas vezes, que Juazeiro deixasse de recolher impostos aos cofres nacionais, ficou do lado oposto da história. Não foi correto. Eu penso duas vezes antes de escrever um cordel. Quando vejo uma nação subjugando outra ou a guerra entre religiões mostro em meu cordel que esses ´fantasmas´ prejudicam demais a humanidade.”

Para conferir toda a Entrevista do Poeta Manoel Monteiro, intitulada Nem Lampião, Nem Pe. Cícero, clique no link a seguir: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=573673

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Uma resposta

26 11 2008
Pedro Gondim

Manoel Monteiro é um bom poeta, mas a sua pretensão de ser o porta-voz do gênero o tem levado a proferir tantas besteiras, tantas inconseqüências, que fica difícil levá-lo a sério. A própria entrevista apresenta muitas falhas. A função do poeta, em qualquer país, em qualquer tempo, é fazer literatura, sem amarras ideológicas.
Se o cordel tiver de chegar à sala de aula, não deverá ser descaracterizado. Não precisará abrir mão de sua estrutura poética. CORDEL nunca foi POESIA MATUTA. Então, não precisa esse cuidado no tocante aos textos mal escritos.

Segundo Monteiro, na entrevista, o poeta MODERNO “…analisa a historia do ponto de vista real, comparando valores…”
Bolas! POETA faz POESIA.
A verdade depende do ponto de vista. Nunca é absoluta. O sábio Voltaire já dizia: “Não concordo com nada do que dizes, mas defendo até a morte o teu direito de dizê-lo.”

“…a história é contada pelo olhar do vencido e critica o vencedor.”
Não é o contrário? Sempre foi o contrário!

“O cordelista de hoje tem a obrigação de ser crítico e não contribuir para a perpetuação de falsos mitos.”

O cordelista não tem obrigação nenhuma a não ser escrever bem. Quem perpetua os mitos á o povo. O cordelista é um intérprete do povo. Às vezes é condescendente com este, às vezes crítico. Monteiro, ao apontar o que o poeta deve fazer, adota uma postura ditatorial.
Analisar o Padre Cicero a partir de um único prisma, o da crítica exacerbada, é banalizar a história de um personagem tão complexo justamente por ser paradoxal.

Esse outro trecho da entrevista diz tudo:
Monteiro afirma que seu cordel é “…pretensioso. Ao ponto de refazer a história do Brasil.”

Precisa falar mais alguma coisa?

Um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

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