Essa noite eu tive um sonho de sonhador. Maluco que sou, eu sonhei.
Sonhei que estava numa sala. Uma sala irremediavelmente branca. Paredes brancas, móveis brancos, roupas brancas, se brincar, até a TV era branca. Tudo ipodianamente branco. No meio desse mundo de algodão, chamaram a minha atenção. Era uma atendente.
Perguntava esta criatura se era a primeira vez que eu tinha estado ali, e o que acontecia comigo. Verborragiei. Disse que sofria de pânico e alucinações. Os detalhes todos vieram à minha cabeça…
Logo me arremeteu o medo que eu tinha da apresentadora do telejornal vespertino e sua cara de catástrofe. Sua boca e sua expressão teimavam em repetir a sinfonia cacofônica “Dólar Dispara”. Em mim, taquicardia.
Num instante, sua fisionomia sem graça tomou a forma de um cineasta decadente. Ele tinha chifres, tridente e exalava um pesado cheiro de enxofre. Ao fundo, trombetas soavam alguma coisa como “nacionalização”. Nessa hora, a sudorese se descontrolou. A atendente perguntou se havia algo errado. Sacudi a cabeça energicamente. Quis saber se já podia sentar-me. Ela disse que sim. Iniciou-se então o sacramento consultorial de folhear revistas.
Para quê, meu Deus? A reportagem de capa trazia a Reunião do G-8. E Madonna. Custei a acreditar que Bono Vox não era mais a bola da vez em Davos. Suas súplicas pela África estavam “fora de moda”, dizia o editor. A new wave agora era a diva pop no conselho supremo intercedendo por ajuda aos oprimidos fundos de pensão. A legenda da foto: “Que será das velhinhas norte-americanas?” Sem trocadilhos.
Uma hora dessas e tudo meu estava tremendo. Ainda deu tempo ler sobre Sarkozy, o reformista implacável, o evangelista liberal do velho continente, falando em “refundar o capitalismo”! Fundo realmente deve ser a palavra da estação.
Uma boa senhora compadeceu-se de meu drama. Falou-me que às vezes também se sentia assim. Foi professora, e quando ouvia a palavra bilhões, entrava em colapso. Ralhava com os alunos, colocava-os para fora de sala, bradando que aquela era uma palavra que, na sua sala de aula, não podia ser dita. No seu tempo, este tipo de atitude receberia uma punição à altura. Bilhões e educação: nem rima tem! Ao final, notando meu transtorno, consentiu que eu lhe tomasse a vez.
Foi quando entrei na sala do médico. Limitou-se a me dizer que o que eu sofria era um drama mundial, coisa da globalização e da vida moderna. Sua filha passava pela mesma situação em casa. Receitou-me alguns capítulos de “O Monge e o Executivo” e duas sessões semanais de treinamento no CIEE. “Você deve tornar isso um hábito, sabe? Pelo menos até esse pessimismo passar.” Quando olhei de relance a tabuleta na parede, o diploma da Fundação Getúlio Vargas dizia: “Dr. Mercado”.
Maluco que sou, acordei…
John Heinz, 23, juazeirense nascido no Crato, é estudante de Direito
(UFPE, Recife).
heinzce@gmail.com
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