Repercussões na mídia – 2 -

10 03 2009

Excomunguem-me, pelo amor de Deus

Por Pedro Porfírio.

“Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
“A vaga de sacristão.”

Miguezim de Princesa, poeta popular paraibano, radicado em Brasília.

Pra mim, chega! O mínimo que exijo é que esse príncipe caquético que conspurca a soleira por onde passou dom Hélder ou qualquer um dos seus colegas foguistas me distinga com o estigma da excomunhão, se é que o principado de cá já não o fez por conta da minha Lei que garante a laqueadura e a vasectomia nos hospitais municipais do Rio de Janeiro.

E mais, como resposta a esse arbítrio inquisitorial, de que não escapou nem o padioleiro do hospital, conclamo a todos os brasileiros, católicos ou não, ao exercício da autoexcomunhão. Aliás, isso não é difícil porque, a esta altura do campeonato, quem verdadeiramente acredita em Deus e ama Jesus sabe que os luxuosos templos religiosos do cristianismo são os últimos lugares onde se pode ter conforto espiritual e misericórdia.

Em primeiro lugar, que fique claro que esse bispo-papão de Recife não está sozinho. Por seu ato de bravura pastoral recebeu o endosso incondicional dos seus colegas de principado episcopal e da matriz do Vaticano, através do padre Gianfrancesco Grieco, diretor do Pontifício Conselho para a Família, do reinado de Bento XVI.

Portanto, fique registrado para todos os fins: para a “Santa Madre Igreja”, estuprar uma menina de 9 anos não exclui ninguém dos sacramentos garantidores de uma paradisíaca eternidade.

Mas salvar a vida de uma menina-moça, evitando um parto de ALTÍSSIMO risco com suas consequências imprevisíveis, isso sim, abre a porta do Inferno tanto quanto naqueles tempos não muito remotos em que se garantia o Céu com a compra de indulgências negociadas pelos argentários do Vaticano.

Perplexos estamos nós

Do convescote na caricata cidade-estado, que visitam pelo menos uma vez por ano, os atuais cabeças da ambígua CNBB divulgaram uma nota meio acanhada falando de perplexidade.

Imagina, se eles, que não entendem de filhos por nunca terem assumido oficialmente a paternidade, estão perplexos, que dirá aquela mãe atormentada pelos crimes praticados contra suas filhas por um monstro que pôs dentro de casa. E que, ao contrário dela, não perdeu a habilitação aos ofícios religiosos, inclusive a extrema-unção.

E não me venham com contos de vigário em nome da leitura de códigos canônicos produzidos muito depois dos anos em que Jesus Cristo teria deixado os ensinamentos, muitos dos quais, como na sua assimilação da prostituta Madalena, são guardados a sete chaves por um valhacouto que já foi o paraíso da libertinagem por muitos séculos.

Esse episódio teve o mérito de revelar a cristalizada hipocrisia clerical. O próprio carrasco admitiu que são realizados no Brasil um milhão de abortos clandestinos por ano.

São mesmo? E o que essa santa madre igreja fez contra os açougues que ganham fortunas à vista de todos num dos ramos mais rendosos da medicina privada?

Ora, não sejamos ingênuos. A indústria de abortos clandestinos praticados em condições de risco se nutre exatamente da sua proibição legal. Duvido que você não saiba o endereço de uma clínica de aborto na sua cidade. Duvido que a polícia, a Justiça, os conselhos profissionais e os párocos não saibam da existência desse submundo da medicina.

Duvido que você e os acima citados desconheçam as práticas irresponsáveis, que vão desde a introdução de uma agulha de crochê no ventre até o uso de medicação “adaptada” para forçar o aborto. Duvido-d-o-dó.

Indústria do aborto impune

Com certeza, a grana extorquida de mães desesperadas não fica só com os açougueiros. A criminalização da interrupção da gravidez, extinta em quase toda a Europa, inclusive Portugal e Espanha, e em outros tantos países como Estados Unidos e China, alimenta uma cadeia de corrupção de uma abrangência surpreendente.

Pode até ser que muitos cristãos tementes das chamas eternas do Inferno acreditem, ao contrário de São Thomaz de Aquino, que haja espírito no germe de um futuro ser. Para reservar o mercado de aborto aos açougues camuflados submetem as pessoas a uma lavagem cerebral desde a primeira comunhão. E não admitem sequer que se evite o nascimento de um feto anencefálico, destinado a um sofrimento extensivo a toda a família.

Por isso, pode ser que alguns leitores estejam também apaixonadamente ao lado do príncipe a quem o presidente Lula, num ato de coragem incomum, tachou generosamente de “conservador”.

Pode ser que alguns leitores acreditem que Deus passou procuração para esses hierarcas nostálgicos dos tempos em que o Vaticano tinha seus exércitos e o clero deitava e rolava, ditando hábitos e costumes, apadrinhando a dominação colonialista e faturando por conta.

Mas, felizmente, a grande maioria dos que aspiram ao Céu por descanso ainda não se emasculou. E esse dom não sei o que ainda vai ter que explicar ao seu próprio rebanho porque a excomunhão para os profissionais responsáveis, enquanto o tal código canônico aplicado em nome de Deus é indulgente com estupradores, bandidos perversos e toda a escória criminosa.

Estripulias emblemáticas

Pessoalmente, deixei de acreditar na honestidade dos prelados desde quando, aos 14 anos, em 1957, vi com meus próprios olhos, no Ginásio Salesiano de Baturité, a manobra solerte encabeçada pelo diretor, padre Antônio Lourenço Urbano, para dar fuga ao padre José Severo de Melo, excelente professor de História, porque o pai de um aluno, um fazendeiro brabo, queria saber que história era aquela de bolinar com o seu filho.

Antes, na infância, convivi com a briga por mais terras entre dois latifundiários: meu pai e o seu irmão, o monsenhor Catão, então um dos mais temidos hierarcas da Arquidiocese do Ceará. Apesar do “voto de pobreza”, o reverendo tinha tanta gana por riqueza que o Zeca, meu irmão, numa dessas discussões, disparou quatro tiros contra ele, errando todos, felizmente.

Da mesma forma, só acreditarei na coerência dos “padres progressistas” no dia em que eles questionarem a mentirada do celibato e denunciarem a pedofilia corporativa, a promiscuidade e a hierarquia que submete a atividade clerical ao comando de um papa todo poderoso, de mandato infinito, com domínio inquestionável sobre o pastoreio exercido em todo mundo em nome do pai, do filho e do espírito santo.

Fonte: Tribuna da Imprensa





Repercussões na mídia

10 03 2009

Dom José Cardoso, um arcebispo medieval

Por Pedro do Coutto.


Poucas pessoas ao longo da história terão conseguido fazer afirmações tão absurdas em tão pouco tempo quanto o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, ao anunciar a excomunhão da mãe da menina de nove anos, estuprada pelo padrasto, e dos médicos que, absolutamente dentro da lei, praticaram o aborto legal e indispensável. A gravidez extremamente precoce colocava em risco a vida da menina. Ela e sua mãe foram vítimas de um crime hediondo.

Para início de conversa, uma frase definitiva: não se pode em Direito algum, inclusive no Canônico, transformar-se a vítima em culpado. Não faz sentido. Não possui a menor lógica ou legitimidade. Dom José Cardoso Sobrinho retornou ao passado trágico da inquisição fazendo a Igreja Católica retornar à idade média que durou de 1200 a 1500 com a Renascença, cujas maiores figuras foram Leonardo Da Vinci e Michelangelo.

Afirmou ele que a lei de Deus está acima da lei humana. Absurdo, pois se Deus é o criador do universo, a lei humana pertence a esta criação. Isso de um lado. De outro, toda criação passará eternamente por processos evolutivos. Este é o destino da espécie humana, seu rumo, seu objetivo. Mas a contradição não termina aí. Com sua frase, colocou-se de forma egoísta como o intérprete insuperável da lei de Deus, à qual recorre.

Dom José foi além. Fez a afirmação despropositada que o aborto é pior do que o estupro. Aí chocou-se com a legislação brasileira, unindo Igreja Católica e Estado, o que foi distinguido na primeira Constituição Republicana de 1891. Assim agindo, lançou também a fé católica a um patamar acima da escala das demais religiões. Não tinha esse direito.

Nem de se intrometer no que o Estado determina, tampouco de projetar sua fé acima do credo religioso dos outros. Além disso, recorreu a Hitler sustentando que os acusadores históricos de seus crimes, inclusive o holocausto judaico, esquecem de um holocausto semelhante causado pelos abortos feitos anualmente no mundo. Neste ponto ele se afastou totalmente da lógica. A começar por um ponto colocado por Elena, minha mulher, do qual estou totalmente de acordo.

Uma simples pergunta: o Vaticano excomungou Hitler? Os líderes nazistas ou fascistas? E aparece um arcebispo para excomungar a mãe e os médicos de uma menina violentada, caso singular, pois estava grávida de gêmeos ainda na infância. Excomunhão num caso assim? É demais. Agride a consciência humana, revolta praticamente toda a sociedade, não apenas a brasileira, mas a mundial.

A Igreja Católica, nos últimos anos, a começar pela Arquidiocese de Boston, foi atingida por casos de pedofilia. Os autores foram excomungados? Agora, tampouco o estuprador o foi. A mãe da menina, por ter autorizado a interrupção, sim, os médicos idem. Francamente não faz sentido. Dom José Cardoso voltou ao passado. Retornou às trevas da intolerância. Um desastre para todos de modo geral. E para o Vaticano em particular.

Fonte: Tribuna da Imprensa.