Por Guilherme Patriota
Quando penso em reflexões sertanejas, pois sertanejo que sou, sempre me vem na memória a fé de nosso povo. E não falo aqui apenas na fé que nos faz viver, mas também na fé que cega, na fé que desvirtua sentidos e, por vezes, nos faz morrer. Na estratégica cidade de Afogados da Ingazeira, no Pajeú Pernambucano, ninguém poderia ter mais fé do que dona A, mãe de gêmeos que, segundo a mesma, nasceram de um milagre de Padre Cícero do Juazeiro. Quando D e E vieram a vida, dona A tinha apenas sete meses de barriga e estava num pau de arara que se acidentou, dirigido por seu marido, a caminho de Juazeiro do Norte, a caminho de receber a benção que sua fé indicava para o recebimento dos seus filhos. Mesmo com o acidente e a gravidez, dona A escapou ilesa e deu a luz a dois filhos homens rezando, atribuindo aquela sorte ao santo cearense e gerando uma promessa que mudaria para sempre a rotina de sua vida. D e E, apesar do inicio de vida difícil, deram continuidade a viagem até a “terra santa” dos sertanejos e foram abençoados pelas palavras de sua mãe ao santo padre, com o sentido de voltarem, os dois, ao horto – santuário do santo padre – quando completassem quinze anos de idade para levar oferendas ao condutor de suas chegadas na terra. Na casa de dona A todos eram devotos e, além disso, sobreviviam da fé dos mesmos e dos próximos, dado que seu J era dono de pau de arara que fazia mensalmente o caminho de Afogados até Juazeiro para levar romeiros pernambucanos à cidade cearense. Dona A nunca deixou D e E irem com o pai em suas viagens, mesmo os dois manifestando o seu desejo de ir, pois para ela este desejo era a manifestação tentadora de sua fé e os dois só deveriam ir no momento certo, na hora certa de cumprir sua missão: pagar a divida prometida no instante de seus nascimentos, tendo resistido ao desejo de tempos anteriores como penitência de gratidão pelo milagre realizado. Seu J, desde o acidente que fez nascerem seus filhos, parou de beber e nunca mais teve qualquer problema na estrada, tendo a fé certeira de que tinha de viver para levar seus filhos de volta ao Juazeiro para finalizar o sentido da graça conseguida. E como é honesta a fé do povo sertanejo, assim como é honesta sua fidelidade ideológica, todos naquela casa diariamente rezavam em agradecimento e para que todos tivessem vida ao menos até o momento de irem reunidos ao santuário do Juazeiro do Norte. Quando faltava uma semana para a data prometida, seu J e dona A avisaram a todos os romeiros da cidade que nesta viagem não levariam ninguém, pois esta era uma viagem prometida e apenas a família reunida iria seguir em romaria. Fizeram todos os preparativos, compraram velas, comida, roupas novas, sapatos e até uma câmera fotográfica para registrar aquele dia tão esperado por todos. Ao amanhecer de um dia de novembro de 2008, entraram todos no pau de arara, seu J ao volante, com dona A e a filha mais velha ao lado, e os quatro filhos homens em cima – os gêmeos e os outros dois mais jovens. Chegaram a Juazeiro no “pingo do meio-dia”, como eles mesmos falavam, e não perderam tempo, direcionando-se retos ao horto para efetivar o pagamento de sua promessa. Chegando a Juazeiro se curvaram aos pés da estátua do santo padre em agradecimento e entraram em um êxtase daqueles que só a verdadeira fé pode gerar. Tiraram fotos, visitaram o memorial, a antiga casa do Padre Cícero e viveram uma felicidade momentânea que era suficiente para toda uma vida. Para seu J e dona A, mais do que para qualquer um, aquele era um momento de comemoração e, no finalzinho da tarde, adentraram em um restaurante para realizarem a “última ceia”, antes de iniciarem a jornada de volta a sua casa. A felicidade era tanta que seu J, extasiado, pediu de cara uma pinga e depois outra, e depois mais outra por fim, passando despercebido o sentido do volante, da direção. Embriagados de fé e vida, ninguém viu nada, ninguém falou nada, ninguém questionou nada e, depois de fartos pela comida, partiram de volta para sua terra natal. Mas a viagem foi curta. Seu J, quinze anos sem ingerir uma gota de álcool, cochilou na estrada e desceu com o caminhão barranco abaixo, levando consigo a vida de toda a sua família. Ao amanhecer, o policial rodoviário, em entrevista a jornais cearenses, afirmou categoricamente: “- Havia sinais de embriaguez no motorista, no entanto a fé dessa gente era tanta que todos morreram sorrindo e segurando uma imagem de Padre Cícero nas mãos. Portanto, e mesmo com fé, não se mistura bebida e direção!”
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Que mulher é essa ?
Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto,
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto,
pronta a perdoar?
Que mulher é essa?
que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,
resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.
Ivone Boechat
PhD em Educação
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