Recife, 21 de maio de 2009.
A vida, por muitas vezes, é muito dura, caleja e faz despertar relações que nem sempre têm a serventia necessária e real para os seres humanos. A sociedade e suas teias de diferenças indiferentes criam laços que são passados de pais para filhos, e este passar, quase sempre, contorna o sentido do poder, da ignorância do poder – até do poder imaginado do matar e do morrer.
Salvando o crime e perdendo a vida
Quando criança, a pequena S imaginava que um dia iria crescer e conquistar seus sonhos, como toda garota de dez anos de idade, mas sua trajetória, desde o nascer, programava um destino difícil e um futuro incerto. S era a sexta filha de seu X e dona C, casal de agricultores Itapetinenses que serviam à família P, alta mandatária das lavouras de caju do Sertão do Alto Pajeú. S era uma menina linda, esperta, estudiosa e consciente de sua situação social, no entanto prendada por um novo despertar que pudesse levá-la a uma vida melhor do que os seus pais podiam dar. S tinha dez anos, mas já fazia a 7ª série e tinha uma compreensão de mulher feita, além de um corpo formado e contornado que deixava qualquer adolescente a soltar pipas para o ar. Seu X e dona C moravam na casa dos fundos da grande fazenda PR, e S, assim como eles, se achava gente daquela gente, família daquela família, pois o tratamento que suas seis filhas recebiam naquela grande casa era bem melhor do que os próprios pais davam na sua, assim como relatavam os mesmos. No entanto, S era diferente, e o coronel A adorava colocá-la no colo, dizendo sempre que queria ter uma filha assim, e seu X enchia os pulmões de alegria por saber que tinha criado uma criatura tão linda, doce e inteligente como aquela. O coronel A apropriara-se de S, como quem realmente tivesse uma filha, mas isso deixava dona C encucada, pois desta forma ele nunca tinha feito com nenhuma das outras cinco, mesmo as tratando super bem. Dona C, inocentemente, resolveu perseguir os passos do coronel A, para saber até onde caminhava a bonança daquela situação e acabou por ver o que não queria: o Coronel estava sem roupas e recebia toques de requinte em seu membro reprodutor pela meiga e inteligente S. Dona C não soube como reagir e resolveu não entrar em ação, pois sua subserviência ao marido X acabava por indicar que aquilo era coisa para homens resolver. Dona C voltou para casa indignada, revoltada com sua condição e levada a experimentar seu primeiro amadurecimento real, que não configurava com a realidade que ela imaginava viver. Guardou-se até a noite, depois que já havia coberto todas as suas seis filhas, dedicando um carinho ainda mais especial a S, e esperou até o final da “Hora do Brasil”, quando seu marido chegava à cama, para contar todo o acontecido. Seu X aparentou um descontrole e, primeiramente, ameaçou matar o coronel A, demonstrando para dona C que era pai e que sentia tudo aquilo de forma brusca e nefasta, incorporando a faceta de um vingador, mas que na verdade já estava vingado. Depois de um diálogo conciliador, dona C notou que seu X demonstrara um medo de reação e, para salvar sua família da maior das misérias que é a humilhação, resolveu convencer seu X a não tomar nenhuma medida direta. Amadurecida por este primeiro baque, dona C resolveu que ela mesma daria um fim naquela situação, buscando montar um flagrante que pudesse demonstrar a todos naquela fazenda, da família do coronel até a sua própria, que o coronel era um homem de posses, mas que não tinha uma conduta como a do seu marido. Dona C notou que sempre que S chegava do colégio o coronel A a levava para o curral, sempre dizendo que iria mostrar o futuro para ela, pois o investimento nos cavalos ou na veterinária eram as saídas para aquele criança a posteriori, mas a senhora já compreendia que sentido era aquele. Na primeira oportunidade, dentro desta lógica, dona C chamou todos ao curral, afirmando que acontecia naquele momento um fato realmente inusitado e que ninguém poderia perder. Imaginando que iria desmascarar o canalha de seu patrão, dona C acabou por esfacelar sua vida. Quando chegaram ao curral, dona C, seu X, a mulher do coronel e seus dois filhos, viram a pequena S se relacionando com o coronel A e geraram um escândalo maior do que a nobre e inocente senhora pudesse programar. Acuado e em defesa, o coronel disse a dona C que estava, na verdade, cometendo um crime, mas que ao mesmo tempo estava salvando a filha de um crime ainda maior, pois seu crime era qualificado e o que o seu X cometia era duplamente qualificado. O coronel explicara, para a despedida da inocência de dona C, que seu X abusava das outras cinco filhas dela cotidianamente e que resolvera tomar parte na situação, pois ele era o coronel e não poderia deixar um fato assim acontecer em suas barbas. Como não tinha outra saída que não fosse cometer os mesmo atos, pois de forma animalesca seu X já havia confessado ao patrão que acreditava que o poder estava nas mãos daquele que resguardasse o sexo ao seu bem querer, resolveu salvar a pequena S de um trauma ainda maior na sua vida promissora, acabando por gerar tal situação. Dona C, quase sem palavras, e antes de cortar seus pulsos com a foice, foi direta no seu texto, que serviu para todos que quisessem ouvir: “- Pedofilia é pedofilia em qualquer lugar.”
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