Radicado em Juazeiro do Norte, o músico Di Freitas lança hoje, no CCBNB, o álbum ´O Alumioso´
Da rabequinha, muita gente não gosta: som que mais parece a ladainha das rodas de um carro de boi… Instrumento de cego… É, muita gente teima em desaprovar as nossas raízes. Explorando a melopéia da tradição árabe em faixas como ´A transfiguração do Alumioso´, o músico cearense Francisco Ferreira de Freitas, ou simplesmente Di Freitas, apresenta a sonoridade da rabeca com as de outros instrumentos artesanais, fabricados por ele próprio, em seu segundo CD, ´O Alumioso´ (Sesc SP). O primeiro foi ´Ultraexistir´ (2007), com a cantora lírica italiana Francesca Della Monica. Rabeca, marimbau, viola de 13 cordas e até violoncelo, seu instrumento de formação erudita, ganham a textura rudimentar da manipulação de cabaças, para dar forma a sons regionais e universais, na companhia de músicos paulistas. No show, terá a companhia de músicos da orquestra de rabecas, coordenada por ele e mantida pelo Sesc em Juazeiro do Norte.
Em alguns momentos, o som é extraído com o auxílio do arco herdado do violoncelo que Di Freitas começou a dominar na Escola de Música do Sesi. ´Em outros momentos, uso as cordas dedilhadas, que aprendi tocando violão com os professores Tarcísio Lima e Raul Soares, mesmo contra a vontade do maestro Vazquen Fermanian´, conta o músico que também ampliou sua formação tocando viola de gamba no grupo de música antiga Sintagma, influência registrada, sobretudo, em ´O Alumioso Caririzeiro´. Os pizzicatos (dedilhados) chegam também à viola de 13 cordas, feita pelo próprio músico e criador de instrumentos, mantendo a afinação original do instrumento (em Ré), mas que se aproxima mais do formato da viola caipira do Sudeste, e não das violas usadas pelos cantadores da nossa região.
Encontro iluminado
O violão, de técnica experimental, soa na única composição com letra, a romançal ´Flor de Algodão´, na voz da cantora Juliana Amaral. E na homenagem a Nonato Luiz, ´Lavras da Mangabeira´, em lirismo ´sujo´ e apoiado pelo acordeon de Lincoln Antonio. O violoncelo (de cabaça) volta a encantar com um clássico do cancioneiro nordestino, ´Vaca Estrela e Boi Fubá´ (Patativa do Assaré), prima-irmã de ´Memórias do Boi Mansinho´, onde, entre ritmos percussivos de outras plagas, o carro voa pelas estradas sonoras do compositor. Também guia a releitura de ´Juazeiro´ (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) e a melodia indígena de ´Manduri, Jati, Cupira´, embora a percussão de Ari Colares e o piano de Lincoln a deixem mais indiana do que propriamente indígena, em alguns momentos. Os dois instrumentos estão até juntos, nas mãos de Di Freitas, na canção ´A estranha cavalgada´, tema armorial por excelência.
E o bailado gostoso de ´Segura o Coco´, em contraponto com o piano mais sensorial de Lincln Antonio, e dobrando a melodia de sua rabeca com viola tocada por Filpo Ribeiro, confirmam como o ´alumioso´ artista estava certo em sua decisão de mesclar referências. ´Salsa com Baião´ também, mais parecendo levada do Mestre Ambrósio até a hora de assumir uma latinidade imprevisível. Com uma levada mais quebrada da percussão e bateria do pernambucano Éder ´O´ Rocha, presente em todas as faixas do CD, ´A dança do Rei Negro´ o traz revisitando as matrizes sonoras do Oriente Médio com outro instrumento seu, batizado de lira nordestina, enquanto Filipo se encarrega da rabeca e Lincln Antonio ataca de piano e pifes.
Nas apresentações de hoje, o público de Fortaleza poderá se aproximar um pouco mais desta riqueza sonora, em que o rabequeiro, flautista e violoncelista terá a companhia de Evânio Soares (rabeca e viola), Cidália Maria (percussão e rabeca), Amélia Coelho (voz e percussão) e do músico egípcio Youssef Atwan. Só não poderá levar o CD, que acabou e não vai ter nem para os lançamentos no circuito Sesc de São Paulo e Rio, mês que vem. Quem puder conferi-lo depois verá um belo projeto, desde a capa de Leda Catunda. Di Freitas acredita estar cada vez mais próximo da linguagem popular, se desfazendo das normas da tradição erudita. Melhor para todo mundo.
CD O Alumioso, 2009
14 FAIXAS, R$ 15
Di Freitas
Contato: franciscofreittas@yahoo.com.br
HENRIQUE NUNES
Fonte: Diário do Nordeste
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