Uma colaboradora do Joaseiro.com pediu-nos para publicar o relato do fato abaixo, que teria ocorrido há duas semanas aqui em Juazeiro. Como se trata de uma denúncia séria, devolvemos o texto ao seu autor e pedimos para que o revisasse, checando se todos os dados correspondem mesmo à verdade. Ele nos reenviou seu texto, identificou-se e agora o publicamos tal qual nos chegou. Mais do que querer procurar culpados ou promover denuncismo barato, a intenção aqui é produzir questionamentos e reflexões sobre os problemas da segurança pública na cidade e no país. Que sistema é esse, onde todos são afetados pela violência e, paradoxalmente, acabam por também praticá-la de alguma forma? O que precisa mudar no aparelho repressor do Estado para não produzir comportamentos violentos nos policiais nem injustiças para os cidadãos?
Joaseiro.com
Fragmentos da Realidade
Chamo-me Emerson, tenho 17 anos e resido em Juazeiro do Norte há aproximadamente um ano e meio. O fato que narrarei a seguir ocorreu comigo nesta segunda-feira (25).
Estava no Pirajá resolvendo problemas de cunho pessoal; fui obrigado a sair de onde estava por volta das 23h30min e, como não disponho de idade suficiente para dirigir, locomovo-me basicamente de ônibus ou mototáxi.
Como já transito frequentemente nessa região, aprendi que no cruzamento da Avenida Ailton Gomes com a Avenida Castelo Branco há uma pequena barraca de lanches, na qual sempre encontro dois ou três mototaxistas. Por isso desloquei-me pela Ailton Gomes até esse cruzamento.
A um quarteirão de chegar ao meu objetivo, aproximou-se de mim uma dupla em uma motocicleta (um deles trajava uma jaqueta de mototaxista e o garupeiro encontrava-se à paisana). Quando chegaram bem próximo de mim, ouvi o suposto mototaxista perguntar ao garupeiro “É esse?”, ele respondeu positivamente.
Descendo da motocicleta, o garupeiro se aproximou de mim e afirmou que eu havia roubado seu celular, já praticamente enfiando a mão no meu bolso em busca do mesmo. Encontrando o meu celular, afirmou ter encontrado e seguiu em direção à moto. Nesse momento, começamos a discutir até que ele se sentou e autorizou o mototaxista a partir. Para impedir que eles levassem meu celular (Motorola V1075) aproximei-me do passageiro e tentei retirá-lo da motocicleta, todavia, ao ver que ele fazia menção a tirar uma arma da cintura, por algum motivo que desconheço afastei-me e deixei-os partir (tal atitude minha foi estranha, pois não sou o tipo de pessoa que tem medo de morrer ou levar tiros). Menos de 30 segundos após sua partida, passou um outro mototaxista. Pedi-lhe que parasse e seguisse o mais rápido possível em direção ao shopping, caminho que os dois tinham tomado.
Subimos em grande velocidade, mas, não encontramos nossos alvos. Ao chegar à rotatória para o Crato, encontramos uma viatura policial parada e fomos até ela. Chegando aos policiais, expliquei todo o ocorrido e, como já era de se esperar, ouvi a primeira frase marcante da noite: “Amanhã depois das oito horas vá à delegacia e faça um BO”. Desiludido, voltei à minha casa que fica na direção contrária.
No caminho de volta, por acidente encontrei com um dos meliantes, o garupeiro para ser mais exato. Eu e o mototaxista começamos a segui-lo, até que voltamos novamente à Ailton Gomes, onde pedimos ao vigia da rua – homem muito corajoso que patrulha as ruas do Pirajá com uma baladeira/estilingue – que ligasse para a polícia. Ele o fez e, impressionantemente, em menos de 5 minutos uma viatura abordou o indivíduo que agora andava acompanhado de outro homem.
Enquanto a polícia buscava algo com os dois, aproximei-me e meio que por impulso gritei: “Motorola preto, é um Motorola preto”. Eles realmente encontraram um Motorola preto, porém, não era o meu. Em alguns segundos chegou a talvez mais respeitada força policial de Juazeiro do Norte, a ROCAM, formando uma verdadeira multidão de policiais (mais ou menos uns sete policiais). Nesse momento, um dos policiais da ROCAM disse a segunda frase marcante da noite: “Esse aí não é ladrão não, eu conheço, ele é pai de família”.
Vendo que tal história não daria em nada, disse aos policiais que não queria ir à delegacia prestar queixa (afinal, sem flagrante seria a palavra de um moleque transitando de madrugada nas ruas de Juazeiro, contra a de um “pai de família”). Enquanto já falava ao mototaxista para me levar à minha casa, ouvi o vigia dizer: “Espera aí, acho que eles podem ter jogado o celular ali”. Então, seguimos o vigia, eu, o mototaxista e os soldados da ROCAM, enquanto os policiais liberavam os dois cidadãos.
O vigia nos levou de volta à Ailton Gomes e começamos a procurar, então um dos soldados exclamou: “Rapaz, vá para cara, esse vigia aí é doido”. Já sem nenhuma paciência, falei ao policial que não estava interessado em saber se o vigia era louco ou não, apenas queria encontrar o meu celular. Então ouvi a última – e ultrajante – frase marcante da noite, dita por um dos soldados da ROCAM que, exaltando-se comigo falou: “Pois vá você e esse vigia tomar no **” – confesso que senti grande vontade de convidar a mãe dele para ir conosco, porém, sabia o que iria acontecer depois de dizer isso.
Por fim, não encontramos o celular e eu voltei à minha casa por volta das 00h20min.
Tendo total crença na veracidade do meu relato, subscrevo meu nome em ressalva ao Artigo 5º, Inciso IV da Constituição Federal do Brasil: “É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”
Emerson Adão Ferreira
Assim é o fim de, com certeza, mais uma história “bem sucedida” da segurança de Juazeiro do Norte e da “amabilidade” de algumas autoridades – colocadas ali para nós servir e proteger – para com os cidadãos. Muita gente não deveria estar onde está.
*Para quem não sabe a ROCAM (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas) foi criada com o objetivo de oferecer uma maior sensação de segurança à comunidade, reforçando o policiamento para tentar diminuir ocorrências como furtos e roubos em semáforos.
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