Recife, 19 de junho de 2009.
“A história de toda a sociedade que existiu até agora é a história da luta de classes”
(Marx & Engels)
Sua Própria classe o Absorverá
Por vezes, nos sentimos tão sós que deixamos de acreditar que qualquer coisa venha a acontecer de forma real fora de nosso próprio organismo. I era um filósofo, um cara que realmente se preocupava com interrogar os sentidos de sua vida e do universo, sem necessariamente ter que se aconselhar com Sócrates ou Platão, inclusive se portando sempre no movimento contrário, acreditando friamente na nunca e não existência orgânica destes indivíduos. I trabalhava numa repartição pública, mas chegava cotidianamente a sua casa, no pós labor, com a mesma questão na cabeça: “para quê serve o trabalho?” Sua resposta quase sempre apontava para a contribuição de mudança que cada ser pode dar para seu habitat, mas a vagarosa porção encantadora de sua lida diária destruía sua ilusão e retornava ao mesmo questionamento. I sonhava em ser filósofo mesmo, no entanto sua carteirinha do sindicato dos filósofos nacionais não podia ser retirada, pois precisava do diploma e, ainda pior, precisava participar da sociedade como um bom trabalhador que merecesse a justa recompensa do dinheiro para se solidarizar com sua mulher e filhos no sustentar do lar contemporâneo. A vida de I era uma luta de classes celulares, que buscavam se encaixar dentro de seus pensamentos e dentro das logísticas humanas de sobrevivência que teimam por colocar homem frente a homem em embates ideológicos que remetem, erroneamente, as suas próprias formas de vida. I se batia e se debatia com o próprio I, com suas próprias fantasias, que só eram utópicas por um medo filosófico de estar só, mas que o conduzia a mais profunda das solidões: a solidão interna. Depois de trinta e quatro anos de serviço público, já com seus filhos formados na filosofia advinda das academias e com seus devidos e justos sentidos financeiros resolvidos, I resolveu abandonar o trabalho sem dar satisfação alguma ao Estado, partindo para a grande empreitada de sua vida: não fazer nada que exercitasse seus músculos, guardando toda sua energia para delinear um método de vivência que conduzisse seu organismo a uma reação inumana que desencadeasse uma interrogação constante na mente daqueles que o observassem. I ficou dentro de casa por 380 dias, e a pressão do mundo batia a sua porta todas as horas. Eram contas, amigos, o estado, a polícia, os vizinhos, e I só conseguia fazer o mesmo questionamento: “Para quê serve o trabalho?” Incomodado pelo incômodo de todos que visitavam seu refúgio para lhe pedir satisfação quanto as suas relações sociais, I resolveu partir sem rumo, partir para um lugar que não fosse lugar e que não fosse fixo, mantendo-o, assim, sempre estranho por onde passasse. Para satisfazer a vontade de seu futuro, I resolveu criar uma caixa postal, que iria ser aberta quando de seu falecimento, para que pudesse enviar textos diários relatando o que ele tinha escrito em cada um daqueles dias que sobraram de seu viver, que seriam lidos como a experiência de um filósofo em busca. Em sete anos de peregrinação, I percorreu todos os continentes, visitando indústrias, sindicatos, ruas, praças, passeatas, comícios, florestas, rios, mares, bares, escolas e tudo mais, sempre anônimo e sempre tentando encontrar respostas para possíveis perguntas que pudessem habitar em sua memória, de acordo com a sensibilidade depositada nas variáveis circunstâncias percorridas. I foi encontrado por seus filhos, pela manhã, na porta de casa, deitado, vestido com a mesma roupa com que tinha saída há sete anos, com as duas mãos sobre o peito, numa delas a chave da caixa postal e na outra uma folha de papel rabiscada. I faleceu com um enorme sorriso, fazendo com que seus filhos não sofressem e compreendessem que sua busca havia terminado/reiniciado. Abriram o papel que estava em sua mão e viram que seu pai deixava, por escrito, os meios legais para que os filhos tivessem acesso à caixa postal que estava situada no correio local. No mesmo instante, antes mesmo de cremar o corpo do pai, os jovens se encaminharam para o correio e retiram todas as cartas. Das duas mil quinhentas e cinqüenta e seis cartas encontradas naquele local, duas mil quinhentas e cinqüenta e cinco registravam o mesmo texto: “Para quê serve o trabalho?” No entanto, na última carta, I expunha o seguinte texto: “O homem percorre toda a sua vida acreditando estar buscando algo que é seu, e por vezes percebe que sua grande busca foi cega, todavia não deve parar de buscar. Desde que me vi como homem, como parte deste grande ser que nos absorve, tornei-me uma criatura intrigada com um único questionamento: Para quê serve o trabalho? Mas não achei resposta; encontrei respostas volúveis ao meu perceber, ao meu raciocinar. Mesmo assim mantive minha busca, que não gerou nenhum tipo de arrependimento. Quanto ao trabalho, relaxa! Sua própria classe o absorverá.”
Joaseiro.com
O sentimento de angústia no mundo de I é também o meu. Não entendo porque uma pessoa se torna “massa”. Uma pessoa é todo um mundo, mas agimos hoje de maneiras tão semelhantes que tornamo-nos “massa”. 6 bilhões e não mais existem vanguardas? Artistas espetaculares? Grande filósofos? Que contradição é essa?
Acredito justamente no oposto há muito mais arte, muito mais literatura, muito mais diversidade que em qualquer época. Mas pela quantidade de novo que a todo segundo surge, torna-se tudo banal de mais? E porque?
Quantificamos, categorizamos, distinguimos, criamos padrões. É verdade facilita de mais a vida e a ” mudança que cada ser pode dar para seu habitat”, mas aonde isto está nos levando? Literatura é banal, filosofia banal, arte é banal, saber a cada segundo o q ocorre em todo o mundo é banal, destruir a natureza de todo o planeta é banal, quase duas dezenas de países com bomba atômica é banal, a morte é banal, árvore banal, animal banal, tudo banal?
Para que viver assim? Se banal tournou-se a vida? Que grande caminho fomos levados.
O novo é a constância, não mais a ruptura. O “sistema” de hoje vive e se mantém da produção e consumo deste novo. E ele é, antes de virar ruptura, trazido para o seio do sistema como produto que o próprio sistema possibilitou.
Nosso pensamento vive sobre uma única lógica. É preciso reverter a própria lógica. Pois a lógica influência todos nossos pensamentos e ações. e nudarmos os pensamentos e ações e não refundarmos a lógica de onde eles surgem de que adianta? É muito maior e mais complexo. Vivemos no mundo que é um grão de areia e esquecemos de todo o resto. Em nosso entorno há quatrilhões e quatrilhões de km pelo universo. Olhando para a mesa a sua frente ela fervilha num movimento incessável e achamos q ela está parada.
Radicalidade realmente. Precisamos de um grande gole, urgente.