Recife, 17 de julho de 2009.
“Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem.”
(Bertold Brecht)
Elas também são culpadas?
Por Guilherme Patriota
Primeiro colocou algumas pás de terra, depois deu um tratamento ideal que pudesse gerar mais relações orgânicas o quanto possível a mesma, alimentando o que ainda não foi vingado ou fincado. Posteriormente colocou a mistura em vaso seguro, de barro, preenchendo todo o espaço vazio. Na seqüência fez um furo no centro da circunferência com o dedo polegar, jogando três pequenas sementes redondas no buraco, recobrindo-o com a terra anteriormente retirada. Vinte minutos depois, ao amanhecer do dia, levou o vaso para a área de serviço do pequeno apartamento, observando que lá o sol apareceria por mais tempo, iluminando a vida que estava por nascer. As oito, treze e dezenove horas, aguava o vaso, tentando ao máximo não machucar a terra, não mexer na bolsa que gerava uma vida. Sete dias depois foi registrado o nascimento de sua primeira filha, um pequeno talo verde com três folhinhas bicudas na ponta. Seu amor era exalado diariamente para sua cria, alimentando-a, observando-a, embriagando-a de positividade, de fascinação, de busca por compreensão, de descobrimento. Vinte e um dias depois a plantinha já era majestosa, cheia de folhas verdes escuras e cercada de outros seres, insetos, que também apaixonados já alimentavam e eram alimentados pela força daquela nova vida. Aos trinta e cinco dias os olhos abriam-se, mostrando pequenos cristais que variavam do branco ao marrom, e que cresciam e cresciam a cada dia, buscando demonstrar sua imponência e instinto de sobrevivência. O crescimento era visível, mesmo para ele que não saia de perto da filha desde que ela nascera; e a vida se renovava, renascia, revivia o que ele precisava que revivesse: A esperança de ver uma vida novamente nascer. Aos sessenta dias, a formosura daquela filha encantava seu pai, de criação/observação/reação, com lindas folhas, belos olhos, enormes cristais e fungos brancos que destoavam do variavelmente equilibrado verde do passar os olhos pelas folhas até seus frutos. O sem nome (SN) percebia que a vida imita a própria vida, que as coisas se geravam, regeneravam, se distribuíam. Aos setenta e cinco dias, ele não podia mais chamar a verdinha de filhota, pois seus descendentes já se espalhavam por toda a área circular, nas alturas de seu um metro e trinta e cinco de comprimento, e vários pretendentes a hospedeiro já circulavam suas redondezas, manifestando que a solidão é um simples estado ideal de um inexistente. Aos noventa dias, verdinha continha um poder de manifestação olfativa impressionante, que atraia qualquer espécie animal que por perto passasse, gerando, por conseguinte, diálogos a mais na análise do SN. A planta crescia, abria seus braços para uma extensão cada vez maior, cegando seus olhos, amadurecendo seus cristais, manifestando a abertura de uma nova percepção de tempo e espaço. SN, de olho viciado na observação, transferira até sua cozinha para dentro da área de serviço, com o intuito não perder nenhum momento daquela vida que nascera e tão logo iria morrer para renascer. Aos cem dias, SN resolveu, resistente, dar o penúltimo passo em direção ao inevitável; resolveu colher, secar e provar a transferência dos valores daquele vegetal para seu reino animal. Cortou todos os frutos, folhas e talos; pôs no sol quente por meia hora; espalhou-os sobre uma palha seca de milho; enrolou a palha sobre o vegetal e amarrou, com dois nós, com outro pedaço da mesma palha cortado em tiras. Finalizado o processo, SN deitou-se na rede, pegou um isqueiro nunca antes usado, pôs o composto vegetal na boca e acendeu a outra ponta. SN, embriagado por concluir a sua observação, esqueceu que sua rede ficava na varanda; que seus vizinhos praticamente dividiam aquele espaço com ele e que o gosto por plantas que faziam fumaça não era nada desejado por qualquer um na redondeza. Cinco puxadas e soltadas de fumaça depois, a vizinhança, que não sabia da existência da filha do SN – não sabiam sequer seu nome -, já fazia balburdias e alarmes por toda parte, afirmando que tinha um maconheiro no prédio. Cem dias e treze horas depois do nascimento, a plantinha era cortada por uma dupla de policiais militares, que prenderam SN por porte ilegal de entorpecentes e por provável tráfico de drogas. O Sem Nome, ainda extasiado com sua primeira relação psicológica com uma planta, em depoimento a polícia, declarou: “Perdi minha primeira filha assassinada. Dizem que foi vítima do tráfico de drogas, da maconha. Passei dois anos tentando entender este fato, me recuperar da situação, perceber como uma plantinha tão singela poderia gerar tamanha tragédia. Passados os dois anos, resolvi compreender melhor do que se tratava, que planta mágica era essa que tinha o poder de fazer um humano morrer. Comprei a terra, cultivei, plantei e vi crescer aquela plantinha que todos afirmavam ter matado minha filhinha. Em minha observação percebi como a vida é generosa e como os pensamentos de transferência de responsabilidades dos homens são perigosos. Ao ver nascer aquela planta, vi minha filha renascer, não morrer; compreendi que o mundo tem ciclos e que os homens teimam em subvertê-los. Verdinha não me fez mal nem quando a fumei, no entanto nosso instinto de poder reverbera soluções mais viáveis para as contrariedades das situações, tornando-nos vítimas de nossas próprias decisões. No final das contas eu que também vos pergunto: será que as plantas são as responsáveis pelas fatalidades humanas, ou nossas fatalidades também recaem sobre as plantas para livrar-nos de todo mal e amém? Quem tiver esta resposta de forma concreta, também possui o direito de me condenar por todos os crimes da humanidade. Salvem as plantas, sem preconceitos ao menos com elas, pois em nossas leis cristalizadas, elas também são culpadas.”
Guilherme I. F. Patriota.
Joaseiro.com
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