Recife, 15 de maio de 2009.
O fantasma do Rio Pajeú
Por Guilherme Patriota
No inicio dos anos de 1990, em Itapetim, os pré-adolescentes não tinham muito o que fazer à noite, a diversão mais comum era ir até a praça Rogaciano Leite, que ficava bem no centro da cidade, para se encontrar e criar aventuras que fossem suficientes, mesmo que paradas, para preencher o buraco de tamanha energia gerada pelo organismo de todos nós. A turma era grande, eu, J, R, S, P, B e vários outros, e nos encontrávamos sempre às 19hs, quando já havíamos jantado, para criarmos a aventura do dia. Tínhamos a mania de repetir, até esgotar o sentido, brincadeiras das mais diversas possíveis, mas sempre impulsionados por algo que não fosse normal, ou que, pelo ao menos, não fosse do gosto de nossos pais – até porque dificilmente eles ficavam sabendo o que estávamos aprontando ou por onde estávamos andando. Nesta época, e por um bom tempo, resolvemos brincar de polícia e ladrão, mas não de forma comum, no meio da praça, optávamos por ir até as margens do rio Pajeú, que ficava a mais ou menos um quilômetro daquela praça central, pois lá a visibilidade era pouca e poderíamos dar mais realidade a nossas imaginações. Quando a brincadeira já parecia tornar-se banal, algo inesperado aconteceu. R, após o termino da brincadeira, saiu na frente, parou no meio do caminho de nossa volta, junto a um cercado de animais que havia no meio da estrada de chão, escondeu-se e imaginou que iria dar um susto em todos nós, os outros. No entanto, todos nós chegamos de volta à praça e notamos que R não tinha vindo conosco e daí começamos a viajar no que teria acontecido. Antes mesmo de montarmos histórias mirabolantes sobre o desaparecimento de R, avistamos o mesmo correndo em nossa direção, gritando, chorando. R chegou pálido, quase sem voz. Parou, sentou-se ao nosso lado, quando todos, aí sim concentrados, perguntávamos para ele o que tinha acontecido, por que ele tinha demorado e coisas tais. R, nessa noite, virou motivo de risos, pois nos informara que tinha visto um fantasma, daqueles clássicos, todo de branco, e o mesmo tinha lhe dito, enquanto ele se urinava de medo, que nós não mais deveríamos voltar a brincar por lá, nas areias do rio. R virou piada por uma noite e um dia, mas nossa curiosidade era gigantesca e sabíamos que no outro dia voltaríamos a brincar por lá de forma ainda mais instigada, pois agora, além dos nossos inimigos de brincadeira, fossem a polícia ou ladrões, tínhamos um fantasma da mente de R para enfrentar. No dia seguinte o grupo já não era mais o mesmo, vários outros amigos de escola apareceram para a aventura, dado que na escola tínhamos passado o dia “tirando onda” da cara de R – o menino que tinha medo de fantasmas – e ninguém, apesar de não acreditar, queria perder esta brincadeira por nada. Desde o momento em que saímos em direção ao rio, todos começaram a pregar peças uns nos outros. Alguns saíram na frente e fizeram susto em nós, os outros, mas nada que pudesse demonstrar um realismo temeroso com o qual R chegou a nossas vistas na praça no dia anterior. Quando convencidos de que não havia fantasma algum, resolvemos dar início a brincadeira, que no fundo era o verdadeiro foco de estarmos ali. Dividimos os times, sorteamos quem seria polícia e quem seria ladrão, e começamos a correria. O grupo dos ladrões que, naturalmente, saem na frente e em fuga, correu em direção a uma pedra que aparecia na margem contrária do rio, e que era lugar comum de esconderijo, pois muitos não tinham coragem de atravessar o rio à noite, apesar dele não ter quase água. No quando deste atravessar, antes de chegar aos pés da pedra, avistamos aquele pano branco flutuante e iluminado sobre a pedra, gritando “saiam daqui, saiam daqui”. Foi a visão do inferno. Era moleque chorando, e guri gritando, eram todos desesperados, aflitos com aquela aparição inesperada que confirmava a verbalização do dia anterior de R. Chegamos à praça em questão de segundos, todos pálidos, com medo realmente, e sem entender como aquilo poderia existir. No correr e no fugir daquele polícia e ladrão, na verdade correndo do primeiro e único fantasma que vi na vida, vários ficaram feridos, cortados pelo arame farpado que cercava toda aquela área. Outros, ainda mais feridos, haviam descido, forçadamente, o barranco abaixo, machucando braços e pernas de uma forma tão grosseira que tiveram de ir ao hospital fazer curativos e se consultar com o plantonista para terem a certeza de que não haviam quebrado nenhum osso. Desta forma, a notícia se espalhou pela cidade, e todos os nossos pais ficaram sabendo do acontecido, mas, obviamente, não deram crédito à aparição fantasmagórica. Passamos uma semana sem aparecer por lá, no entanto, na primeira investida de S, que era mais afoito, resolvemos tirar a “prova dos nove”, querendo outra vez ver para crer. Neste ínterim ZJ, que era pai de P e também policial, havia abandonado a sua patrulha noturna para patrulhar nossos passos, pois queria entender como seu filho tinha se machucado tanto. Paciente que era, ZJ esperou toda aquela semana nos vendo ficar na praça de conversa fiada, mas não arredou o pé de nossa cola até que fôssemos outras vez para algum lugar estranho, como era o caso de nosso rio das brincadeiras. Saímos da praça temerosos, mas dispostos a encarar o fantasma de uma forma ou de outra, querendo conversar com ele para saber qual era o corpo que tinha deixado sua alma, ou seja, saber se ele era o espírito de seu ZS que tinha sido dono daquelas terras em épocas passadas. Quando chegamos ao rio vasculhamos toda a área, buscando encontrar aquilo que nunca quisemos e ficamos com o nunca achar, pois enquanto caminhávamos nenhum sinal do fantasma apareceu. Resolvemos sentar na beira do rio que ficava do lado da cidade, como que esperando o momento de outra aparição. O tempo passou, e quando já nos levantávamos para irmos de volta à praça, frustrados com a não aventura daquela noite, enxergamos novamente o pano flutuante e iluminado vindo em nossa direção. Ficamos parados o quanto deu, mas nossas pernas começaram a tremer e saímos em retirada, correndo, com aquela aparição a nos perseguir. Nosso medo era tão cego e grande, e a escuridão era sempre tanta, que nunca percebíamos que sempre alguém estava faltando nos momentos em que o fantasma aparecia, e, de repente, no meio da perseguição, ouvimos dois tiros e gritos: “- Para, filho da puta! Para!” Era o policial ZJ, que estava a nossa espreita e que agora perseguia o fantasma a nos perseguir. Enquanto pulávamos a cerca, vimos a luz do fantasma desaparecer, e vimos o pano cair no chão e ouvimos aquela voz conhecida afirmando: “-Sou eu painho! Sou eu!” E ZJ, tirou seu chicote, que sempre estava no cinturão e começou a gritar e a chicotear ao mesmo tempo, dizendo: “- Sou eu o quê, seu cabra! Você num é fantasma, então vai ter que apanhar para ganhar vida!” Desta feita, estava descoberta a aparição. O fantasma não passava de um lençol branco com uma lanterna por abaixo que cobria, em revezamento, o corpo de P num dia e o de B no outro. Eles sempre deixavam o equipamento fantasmagórico enterrado, dentro de um saco, junto à pedra na outra beirada do rio, aproveitando-se da escuridão não para fugir no polícia e ladrão, mas para se transformarem naquela aparição. Para P, flagrado pelo pai por dois crimes familiares, brincar onde não podia e enganar toda uma cidade, sobrou o castigo de não mais poder ir para a Praça Rogaciano Leite por um ano inteiro, tendo cumprido a pena por completo. Já B, filho de JC, pai que foi avisado na mesma noite sobre o acontecido por ZJ, teve como punição imposta por seu pai criar uma nova aparição fantasmagórica que pudesse enganar seus outros três irmãos, obviamente que com a ajuda de todos nós.
Joaseiro.com
Comentários