Poema

25 10 2009

O homem-máquina

Por Franzé Matos

O homem-máquina vivia
Antes numa ilusão de ser homem
Agora num desejo de ser máquina

No sol quente
Que lhe tocava a pele
Feria agora a química fria
Que protege e perece
Até o próximo frasco
Casco cheio de nova pele
Que se compra

O olhar se estende a vastidão
Do novo e límpido focar de sua mão
A matéria escura de todo universo
O subverso, o transverso já não são limites
O limite é a capacidade de ser máquina
De ser Deus na terra. Este demônio do homem?

Mefistófeles amigo
Que traz de volta o sentido
Sem te cobrar quase nada
Apenas sua alma
Sua gana, seu drama
De ser um novo homem
Homem perfeito e máquina.

Joaseiro.com





Poema da Semana

6 09 2009

Por Franzé Matos

Desligado de tudo estou

Sou um contato raro com o fundo

Desnudo de tu estou

Escrevo as loucuras do mundo

Sou a voz que se cala

Quando tu fala

Não o tu outro

Mas tu que tem fala

Que me cala, que me prende

Descrente que ainda existo

Sou teu interior

Puro torpor em revolução

Degeneração do que sempre vias

Pois tudo é aparente

Dormente segues

Se assim não te guias

Pergunta-me e te respondo

Da-me a mão e te dou um beijo

Mas basta um lampejo

Gracejo de mentiras

E por tempos não te vejo

Mas a vida é reação

Que por me esquecer

Faz-te  a cada golpe sofrer

Por buscar verdades

Nas mentiras

Talhadas a sangue, fé e fogo

Mito,religão e filosofia

As feridas que viram

cicatrizes da guerra interior

Que saram sem nunca desaparecer

Pois basta o medo aparecer

E sempre estarei lá

“Vem! Sou teu amigo”

Joaseiro.com





Poema da Semana

23 08 2009

Por Franzé Matos

Eis que surge o medo da vida e da morte

Sangrando horizontes, busco um norte

Para uma realidade que evanesceu

 

Perdido estou no apagar da chama

Clama agora a infinidade de perguntas

Sem resposta, sem resposta

Chora o meu mundo interior

Um mundo em quem ninguém mais mora

 

Aos loucos fui jogado

E os chamei de companheiros

as perguntas do passado?

Fortaleza de sem sentido passageiro

 

Sou portador de mim mesmo enjaulado

Busco a luz na noite fria

Para escapar da fugacidade

Da mudança eterna que se anuncia

Mas recrudesce um medo

Medo que não mais queria

 

As certezas aparentes

Anestesiadas dormentes

Com o teletransportar para prisão

Liberta o eu de dentro

Ser frágil e nu na vastidão

Um fiel descrente

Racional demente

De verdades em vão

Joaseiro.com





Poema da Semana

9 08 2009

Por Franzé Matos

Sentado ao banco olhando o horizonte

Sob um sol das trevas me tirar

Consigo imaginar uma visão de mundo diferente

 

A grande massa do mar

E a invisibilidade do ar

Fazem remeter às contradições iminente de nosso ser

 

Tente pensar o mar

Sem olhar para o que sempre vês

Sonhas obter algo diferente?

E todo o ar que não vês

Julgas conhecer, mesmo sem enxergar?

 

Enxergar o mar

É não reconhecer

A contradição de nossa visão

Um líquido em volição

Resultado de uma agonia unificadora

Das energias por elas mesmas

Infinitos átomos em relação

Produzem a sensação

Da compreensão do múltiplo como unidade

Mas e todo o ar que não vês?

Como não reconhecer que existe?

 

 

Acreditas demais nos sentidos

Que polidos para nos dar falsas afirmações

Completam sua missa

De nenhuma verdade nos mostrar

Pois nos comandos errados que damos

Recebemos o simples engano como resposta

E cabe a nós duvidar

E nessa mesma duvida contemplar

As visões diversas que se mostram

E na diversidade que aprece

Recrudesce um no modus para a verdade.

Joaseiro.com





Poema da Semana

26 07 2009

Por Franzé Matos

O que é isso sobre nossas cabeças?

Estrelas? Galáxias? Planetas? Não é o desconhecido

Aquilo que tanto temes em pensar

Vives num planeta que flutua sobre o nada

Que é um tudo. Sem saber que é poeira

Uma lareira ínfima. Em oceanos ao quadrado² ao quadrado²… de incertezas.

Tu amigo não tens certeza de nada

Moras num grão de areia

Inebriado pelas glórias voláteis

De falsas verdades

E esqueces as estrelas

Tu? O bem maior da natureza.

Grande piada! Pó é pouco para o que tu és em relação a uma galáxia.

Admira-me ver quão amantes és das falácias…

Porque gostas tanto de se enganar?

Tua Terra gira e não sentes

Tua galáxia movimenta-se e não sentes

O universo se expande e não vês

Como podes crer nisso tudo que te mandam pensar?

Expande-se? para onde?

Buscas uma segurança onde não existe

Inebriar-se com certezas artificiais

Não traz paz alguma ao homem

Mas te faz viver em um cemitério

Coberto pela terra

Que te penetra a boca

Que transforma em rouca

A voz que agora chora por ti

E tu! Sem nunca refletir. Sobre o absurdo aparente que te entorna.

Pois fechando a porta para este universo de mistérios,

Corrompe-se a mentiras ditas como verdade

De onde baseias tua “inteligente” vida

Jogas uma bola para cima ela cai!

Que magnífica certeza, não?

Vais para lua e atira a mesma bola…

A bolsa de valores que agora quebra

Sais da Terra

De que te vale essa verdade?

Humildade é…

Sentir saudade do desconhecido

E ser ungido ao mundo que realmente te aproxima da verdade.

E a única saudade, humano, que deves ter

É a de perceber que realmente nada sabes.

Joaseiro.com





Poema da Semana

20 07 2009

Um Direto Eufemismo

Por Franzé Matos

A morte que se aproxima

A galope caminha em minha direção

Fomentando a contradição

De um medo assombroso sentir

Vire seus olhos para as estrelas

Tudo quanto vês e imaginas

Não faz jus a infinda

Magnitude universal

Em bilhões de anos-luz

De corpos incontáveis em relação

A morte está presente

Para destruir o aparante

E transformá-lo em sensação

Metamorfoseando as energias

Fazendo crescer nossa agonia

E em outro ponto

Nova vida surge

Mas como vivemos num mundo

Escravos dos sentidos e tempo

Sofremos em Refletir a morte como fim

No solo árido sem o húmus

Sob o sol a lhe queimar

O que pensas encontrar?

Se a morte não o aduba

Apegamos-nos a coisas que passam

Transformando-as em eternas

Criando as telas de nossas verdades

Que a morte também transformará

Transformando em energia

A lágrima que cai do teu rosto

Produzindo o próximo objeto posto para a felicidade que está porvir

Joaseiro.com





Conto da Semana

20 07 2009

Recife, 17 de julho de 2009.

“Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem.”

(Bertold Brecht)

Elas também são culpadas?

Por Guilherme Patriota

Primeiro colocou algumas pás de terra, depois deu um tratamento ideal que pudesse gerar mais relações orgânicas o quanto possível a mesma, alimentando o que ainda não foi vingado ou fincado. Posteriormente colocou a mistura em vaso seguro, de barro, preenchendo todo o espaço vazio. Na seqüência fez um furo no centro da circunferência com o dedo polegar, jogando três pequenas sementes redondas no buraco, recobrindo-o com a terra anteriormente retirada. Vinte minutos depois, ao amanhecer do dia, levou o vaso para a área de serviço do pequeno apartamento, observando que lá o sol apareceria por mais tempo, iluminando a vida que estava por nascer. As oito, treze e dezenove horas, aguava o vaso, tentando ao máximo não machucar a terra, não mexer na bolsa que gerava uma vida. Sete dias depois foi registrado o nascimento de sua primeira filha, um pequeno talo verde com três folhinhas bicudas na ponta. Seu amor era exalado diariamente para sua cria, alimentando-a, observando-a, embriagando-a de positividade, de fascinação, de busca por compreensão, de descobrimento. Vinte e um dias depois a plantinha já era majestosa, cheia de folhas verdes escuras e cercada de outros seres, insetos, que também apaixonados já alimentavam e eram alimentados pela força daquela nova vida. Aos trinta e cinco dias os olhos abriam-se, mostrando pequenos cristais que variavam do branco ao marrom, e que cresciam e cresciam a cada dia, buscando demonstrar sua imponência e instinto de sobrevivência.  O crescimento era visível, mesmo para ele que não saia de perto da filha desde que ela nascera; e a vida se renovava, renascia, revivia o que ele precisava que revivesse: A esperança de ver uma vida novamente nascer. Aos sessenta dias, a formosura daquela filha encantava seu pai, de criação/observação/reação, com lindas folhas, belos olhos, enormes cristais e fungos brancos que destoavam do variavelmente equilibrado verde do passar os olhos pelas folhas até seus frutos. O sem nome (SN) percebia que a vida imita a própria vida, que as coisas se geravam, regeneravam, se distribuíam. Aos setenta e cinco dias, ele não podia mais chamar a verdinha de filhota, pois seus descendentes já se espalhavam por toda a área circular, nas alturas de seu um metro e trinta e cinco de comprimento, e vários pretendentes a hospedeiro já circulavam suas redondezas, manifestando que a solidão é um simples estado ideal de um inexistente. Aos noventa dias, verdinha continha um poder de manifestação olfativa impressionante, que atraia qualquer espécie animal que por perto passasse, gerando, por conseguinte, diálogos a mais na análise do SN. A planta crescia, abria seus braços para uma extensão cada vez maior, cegando seus olhos, amadurecendo seus cristais, manifestando a abertura de uma nova percepção de tempo e espaço. SN, de olho viciado na observação, transferira até sua cozinha para dentro da área de serviço, com o intuito não perder nenhum momento daquela vida que nascera e tão logo iria morrer para renascer. Aos cem dias, SN resolveu, resistente, dar o penúltimo passo em direção ao inevitável; resolveu colher, secar e provar a transferência dos valores daquele vegetal para seu reino animal. Cortou todos os frutos, folhas e talos; pôs no sol quente por meia hora; espalhou-os sobre uma palha seca de milho; enrolou a palha sobre o vegetal e amarrou, com dois nós, com outro pedaço da mesma palha cortado em tiras. Finalizado o processo, SN deitou-se na rede, pegou um isqueiro nunca antes usado, pôs o composto vegetal na boca e acendeu a outra ponta. SN, embriagado por concluir a sua observação, esqueceu que sua rede ficava na varanda; que seus vizinhos praticamente dividiam aquele espaço com ele e que o gosto por plantas que faziam fumaça não era nada desejado por qualquer um na redondeza. Cinco puxadas e soltadas de fumaça depois, a vizinhança, que não sabia da existência da filha do SN – não sabiam sequer seu nome -, já fazia balburdias e alarmes por toda parte, afirmando que tinha um maconheiro no prédio. Cem dias e treze horas depois do nascimento, a plantinha era cortada por uma dupla de policiais militares, que prenderam SN por porte ilegal de entorpecentes e por provável tráfico de drogas. O Sem Nome, ainda extasiado com sua primeira relação psicológica com uma planta, em depoimento a polícia, declarou: “Perdi minha primeira filha assassinada. Dizem que foi vítima do tráfico de drogas, da maconha. Passei dois anos tentando entender este fato, me recuperar da situação, perceber como uma plantinha tão singela poderia gerar tamanha tragédia. Passados os dois anos, resolvi compreender melhor do que se tratava, que planta mágica era essa que tinha o poder de fazer um humano morrer. Comprei a terra, cultivei, plantei e vi crescer aquela plantinha que todos afirmavam ter matado minha filhinha. Em minha observação percebi como a vida é generosa e como os pensamentos de transferência de responsabilidades dos homens são perigosos. Ao ver nascer aquela planta, vi minha filha renascer, não morrer; compreendi que o mundo tem ciclos e que os homens teimam em subvertê-los. Verdinha não me fez mal nem quando a fumei, no entanto nosso instinto de poder reverbera soluções mais viáveis para as contrariedades das situações, tornando-nos vítimas de nossas próprias decisões. No final das contas eu que também vos pergunto: será que as plantas são as responsáveis pelas fatalidades humanas, ou nossas fatalidades também recaem sobre as plantas para livrar-nos de todo mal e amém? Quem tiver esta resposta de forma concreta, também possui o direito de me condenar por todos os crimes da humanidade. Salvem as plantas, sem preconceitos ao menos com elas, pois em nossas leis cristalizadas, elas também são culpadas.”

Guilherme I. F. Patriota.

Joaseiro.com





Conto da Semana

12 07 2009

Recife, 03 de julho de 2009.

“O excesso de luz cega a vista.

O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demasia estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isto, o sábio em sua alma

Determina a medida para cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o invisível.”

(Lao-Tse)

A Horta Comunitária dos Sonhadores

Por Guilherme Patriota

Talvez a leitura seja uma das coisas mais importantes para a cultura programada do ser humano, mas em casos mais raros o degustar do vício se torna uma doutrina quase que incorrigível de repetições e mais repetições do que não foi vivenciado, e assim foi com a vida de PR. Ele acordava cedo para ler Proust ou Joyce, pois ao meio-dia tinha que iniciar suas leituras de poesias ultra-românticas, visualizando o estudo filosófico do início da tarde e as leituras científicas do final, para que no começo da noite pudesse sair para encontrar os colegas e logo voltar para casa e tentar compreender textos biográficos que versavam sobre o homem em estado artístico. PR, aos quarenta anos, já havia lido mais de três mil livros, mil trezentos e cinqüenta notoriamente identificados nas primeiras páginas de uma agenda que ele sempre carregava em baixo do braço, no entanto estes dados e seu PHD na escola de estudos culturais da Inglaterra não solucionaram o sentido de compreensão de sua própria vida. No pouco tempo que tinha com colegas, não amigos, pois PR não tinha paciência de ouvir aqueles conhecidos de infância que falavam sobre trabalho, dificuldades do lar, do dia-a-dia, ele apenas condicionava a conversa dos rapazes e moças, de sua velha cidade, a análises, sempre aplicando dizeres de algum de seus tantos ídolos literários como forma de convencimento e sabedoria superior sobre a vida dos outros. PR morava com os avós, pois seus pais, quando ele completou vinte e oito anos, transferiram todas as responsabilidades convencionais e financeiras da vida de um cidadão para as mãos do jovem leitor, e PR não teve saída mais simples do que ir morar com os avós que tanto o amavam – ele era o único neto do casal quase centenário. A aristocrática família de PR nunca permitiu que ele mexesse uma palha sequer quanto às resoluções práticas do cotidiano. Ele não lavava, não passava, não cozinhava, não trabalhava, não pagava, não participava, não recondicionava; apenas lia. Quando os pais promoveram PR ao que os escritores capitalistas chamam de liberdade, ele sentiu que a perdeu, e, pior, percebeu que poderia perder sua leitura, seu único ente incondicionalmente querido. Morando com seus avós na velha e mesma cidade de sua infância, PR intensificou monstruosamente seu índice de leitura e transformou sua vida em um campo literário daqueles que só as palavras escritas é que têm valor. Todos desacreditavam PR naquela pequena localidade, pois lá a moral de um homem que vive de sonhos sempre foi descartada, impregnando-se todos os horizontes com aqueles dizeres de que “o trabalho engrandece o homem”. PR não ouvia, pois a paciência lhe faltava e, ao mesmo tempo, era totalmente preenchida pelos próprios livros, que o envolviam, que o cativavam a devanear e devanear em sua singular realidade. No aniversário de cem anos de seus avós, quem recebeu o presente foi PR, tudo bem que não era o mais desejado, pois o casal de idosos havia viajado sem rumo pelo mundo deixando uma carta de liberação para o neto, afirmando que agora sua vida estava por sua própria guia, por seu próprio intuito. PR, não tão perturbado como da primeira vez que foi “libertado”, pelos seus pais, juntou seus melhores livros e partiu para a rua. A cidade inteira já tinha noção de tudo, e deixaram PR por duas noites se virar com pequenas porções de alimento doadas pelos, agora, colegas de convivência – os sujeitos das ruas. A vitalidade e a disciplina de PR surpreendiam a todos, dado que não perdera nenhum dos seus hábitos de leitura no quando do habitar a praça. O sentido de [in]desejo dos habitantes daquela cidadezinha, não permitia que PR pudesse sobreviver daquela forma, ativando um inconsciente/consciente coletivo de não ajudar ao ex-aristocrata leitor que se recusava a render-se aos moldes de vida dos cegos do social. O tempo passou e PR continuava feliz, lendo, lendo, lendo, e agora cercado de amigos “ignorantes” que adorava ouvir. Para PR, ao contrário dos colegas de outrora, os mendigos falavam por uma verdade própria que estava “para além do bem e do mal” de sua também verdade, referendando que os sonhos, muitas vezes, e para alguns e outros de formas diferentes, podem ser pequenos traços de montagem para um quebra-cabeças chamado realidade. PR e seus amigos foram e ficaram isolados de sua sociedade, adotando o canteiro central da praça ao fundo do cemitério, com a autorização de sabe-se lá quem, de boa fé, na prefeitura, como “horta comunitária dos sonhadores”, que produzia o essencial a sobrevivência alimentar dos mesmos e servia como biblioteca pública a céu aberto daquele município. Em três anos PR ensinou todos os mendigos da cidade a ler e escrever, cativando um drink diário de sonhos para todos aqueles que não tinham o direito de sonhar. A “horta comunitária dos sonhadores” ganhou outros campos quando um crítico literário bisbilhoteiro a descobriu, pelas palavras de sua fonte “como um ato louco de um aristocrata exótico que quer aparecer”. Publicada a primeira notícia no jornal, relatando a nova comunidade intelectual formada no interior do país por mendigos leitores, todos os veículos de comunicação internacionais queriam conhecer e entrevistar o suposto líder daquela irmandade. PR recusou, pois afirmava não existir irmandade alguma, apenas a resolução de algo que naturalmente teria que se resolver. Mesmo não sendo o desejo de todos, a horta tornou-se ponto turístico daquela cidade, e a não irmandade teve que identificar seu território, agora novamente compartilhado pela população, com uma placa escrita a mão por PR: “A Horta Comunitária dos Sonhadores – Decidi ensinar quando parei de ler. Ao parar de ler descobri que nos homens os vícios sempre irão existir, e somos obrigados a passar alguns destes corriqueiros para nossos iguais, cativando a continuidade das ações quando estas geram sonhos. Passei quase meio século me dedicando a algo que imaginava ser meu, até descobrir que o que era realmente próprio estava resguardado. De tanto sonhar, devaneando por o que não era, acabei encontrando um real caminho, acreditando em mim mesmo, e agora nos outros que também são meus.”

Joaseiro.com





Poema da Semana

5 07 2009

Na análise das verdades

Por Franzé Matos

Na análise das verdades

Em que nutrimos uma saudade

Das coisas voláteis que sempre passam

É possível ser diferente

E pensar de forma divergente

De uma realidade enunciada

 

Enunciada pela boca de outros

Que partem de um conhecimento posto

Para não padecer do sofrimento

De todo conhecimento ter de reconstruir

Pois partindo de bases sólidas

Uma linda estrada se abre

E o homem caminha

Por vias seguras feito areia movediça

Olhando para um bonito céu de mentiras

Que parece a verdade

E nutrimos uma saudade

Do efêmero que sempre passa

 

E nesta estrada que se anuncia

Encontramos apenas a agonia

De seguir sem questionar

O conhecimento do movediço do asfalto posto

E com grande desgosto

No fim da vida percebermos a vida mesmo que perdemos.

 

O intuito do meu existir

É dinamizar esta via

E exorcizar a segurança da minha vida

E o oposto a mim sempre buscar

Para adentrar um eterno nascente

Que me oriente para um caminho novo sempre sonhar

Em que tudo careça de ressignifcados

E que mesmo neste estado de incerteza

Encontrarei mais clareza

Do que no pensamento posto.

 

Construir o conhecimento em você

Não pode ser algo fácil

Mas como um parto

Rompendo as forças que tentam lhe prender.

Irrompendo em ato

Ato de liberdade

Que é a vida.

Joaseiro.com





Música Mineira e suas múltiplas faces

2 07 2009

Parte III (e final) – A Nova Cara da Música Mineira

“O tempo é curto para o que você quer ser”

Por Helayne Cândido

Quando me propus a escrever esse especial em três partes sobre a “a nova cara da musica mineira”, queria terminar com um som que estou sempre em total sintonia em suas mais variadas vertentes: o rock.

Nos últimos cinco anos há de se perceber que o rock nacional também sofreu forte influência do tal chamado indie rock, que de forma simplificada seria um estilo musical caracterizado por bandas que não são lançadas por grandes gravadoras, ou seja, alternativas ao grande mainstream. Essa tal alternatividade é que possibilita, pelo menos na maioria das bandas, a não perda de identidade do som e, por conseguinte, o “não perder das rédeas” do próprio trabalho por imposições de mercado, grandes gravadoras e afins. A grande explosão indie rocker surgiu em meados da década de 90, na Inglaterra, com bandas como Pavement (sou muito fã dessa!), Oasis, Blur, e gera reflexos até hoje nos anos 2000, com bandas como: The Strokes, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, The Raconteurs, The White Stripes, The Kooks e tantas outras que, se eu fizer uma lista, dá-lhe ad infinutum nela.

Em se falando de indie rock tupiniquim, podemos citar bandas como: Forgotten Boys, Supercordas, Superguidis, Walverdes e tantas outras. Mas, e Minas Gerais, hein?! A-Há! Eu já tenho uma banda de indie rock mineira preferida e se chama monno (assim mesmo, com letra minúscula), que é formada por Miari (vocal e guitarra), Coelho (guitarra), Euler (baixo) e Koala (bateria) e é um bom exemplo dessa influência no rock nacional. Com apenas três anos de existência, já possuem uma bagagem contando com dois EP’s, um Single Virtual e um DVD. O primeiro disco, lançado em 2006, abriu espaço para a banda em vários festivais (o grandioso Pop Rock Brasil, Calango, Bananada, Labpop, Gig Rock, Garimpo, Grito Rock), canais (MTV e Cultura), e páginas (Bizz e Rolling Stone) do país. No segundo disco, eles mostram que têm a energia necessária para continuar o movimento de expansão. O disco foi inteiramente produzido pela banda e masterizado pelo canadense Harris Newman, que já trabalhou com vários grupos bacanas do seu país, incluindo o Arcade Fire. As gravações começaram em junho de 2007 e, após nove meses, o CD foi lançado. Foi feito também um registro em vídeo, com alguns trechos disponíveis na internet e a versão completa em DVD, que saiu em edição limitada junto com o disco.

Em seu primeiro trabalho, homônimo logo na primeira faixa, “Silêncio”, o vocalista Bruno deixa claro: “O tempo é curto para o que você quer ser”. Passeamos freneticamente entre as sensações de euforia e depressão por todo o CD. As guitarras de “A Falta” e “#1” colam de forma imediata. Entre as melodias tristes e bonitas, como “Nada demais” e “Lugar Algum”, percebemos a estampa indie impressa. As duas últimas faixas, “Quem Sabe” e “Um dia”, caminham entre os dois extremos. Limpas ou sujas, com muitas distorções, as guitarras nos convidam a ver no comum beleza.

No segundo trabalho a sensação das músicas é como estar em alta velocidade junto à banda, numa montanha russa onde só existe o AGORA. Não é a toa que este é o título do trabalho. O resultado são faixas bem dançantes como “Enquanto o Mundo Dorme”, “Carta Pra Depois” e “Acontece”, e para momentos mais calmos faixas como “O Pouco Que Eu Quis” e “As Pequenas Coisas” (adoro ir pra faculdade escutando essas).

Em entrevista, o vocalista Miari afirmou que a intenção era deixar o som da banda “esquisito” como o das bandas canadenses, aliás, ele próprio afirma que uma de suas grandes referências é a banda Pedro The Lion (http://www.myspace.com/pedrothelion), que por sinal é muuuuiiitooo boa! E percebe-se logo de cara a forte influência dessa banda no atual som de monno, mas não acredito que este chega a causar “estranhamento” em sentido negativo. Pelo contrário, reafirma que a monno amadureceu seu estilo em “Agora”, apresentando novidades: guitarras, baixo e bateria com visitas ocasionais de teclados, trompete e efeitos eletrônicos. Na última faixa, “21 Dias”, os versos de Miari deixam claro o caminho da banda: “Prefiro você a ficar em paz / o seu excesso, toda sua urgência / nunca é demais”, e é desse excesso de urgência de vida que a banda se reinventa e recria novas possibilidades para o rock nacional.

***

Confira os vídeos do youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=wsAdEd2MxAM

http://www.youtube.com/watch?v=NxRLzSqqWSo

http://www.youtube.com/watch?v=V1DVuUWzvD4

http://www.youtube.com/watch?v=h-4yHUo4BkA

***

Pra escutar:

http://www.myspace.com/monno

Pra ver:

http://www.fotolog.com/monno

Pra baixar:

http://tramavirtual.uol.com.br/monno

Joaseiro.com

Veja os outros textos dessa série:

PARTE 1: http://joaseiro.com/2008/08/22/musica-mineira/

PARTE 2: http://joaseiro.com/2009/02/06/parte-ii-a-nova-cara-da-musica-mineira/





Poema da semana

28 06 2009

A consolação da Filosofia – Homenagem a Boécio

Por Franzé Matos

 

No ambiente que me permeia

Sinto no âmago da extensão cutânea

A umidade putrefata dos caminhos que cerceiam

O meu livre caminhar

Que pela falta de liberdade permanecem sozinhos

Encharcados de água no ar

Que de tão úmidos parecem o mar

Mar de lama! E só me resta a cama

E a caneta filosófica usar

Para me afastar dos meus tormentos

Que por uma pena obtusa pagar

Eu deixe de alimentar sentimentos tão vis

Que demovem a noção do ser racional que sou

quE se me deixo vagar

Pelo lado puramente isntintitvo do meu ser

Sinto extremo prazer em concretizar o que pede minha mente

Sofismas e atos doentes

Que me deixam descrente

Da importância do continuar.

Mas pela filosofia

Despejo em tintas minha agonia

E mancho o papel em busca da consolação

Que traz a perfeição de saber que Deus é o próprio bem

E que quem leva uma vida justa e virtuosa

Tem cadeira certa no mundo dos intelectíveis

Pois superar este corpo, que é caverna

É entender a contradição da matéria

E saber que essa mesma contradição

É condição para a verdade

E no caminho do saber sigo pelos anos.

E as prisões materiais que me prendem

Fizeram florescer vivaz energia

Transformando a agonia na força que impulsiona

O livre voar do meu pensamento

Que descobriu a verdade

E que em meu corpo já não habita

E sou princípio de tudo que exista

O puro ato de criar

Sou o próprio nada em movimento.

Joaseiro.com





Uma nova visão para a humanidade

28 06 2009
Recife, 26 de junho de 2009
“Para o homem que possui o conhecimento, não existe dever… E, para dizer ainda como conclusão o que dizia ao começar: o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.”
(Nietzsche)

Buscando, de forma lúdica e brusca, uma nova visão para a humanidade

Por Guilherme Patriota

     No mundo da banalidade, MJ apenas sobrevivia. Ele tornara-se, desde criança, o maior pensador de seu tempo, e havia vendido cem milhões de cópias de seus livros quando adulto. Sua personalidade absurda era destaque em tudo, pois conseguia refletir para si os fatos, as vivências e as preponderações de seu tempo sem se perder na história da humanidade. MJ havia se isolado desde os vinte e cinco anos de idade, pois sua forma de pensar já não era o mais importante, dado que a mídia, como que buscando copiar suas formas de agir para gerar outros seres iguais, procurava descrever cada ato de sua vida conturbada, invadindo os limites de convivência particular e atirando as facetas humanas de um, aparente, não humano nas capas de todas as revistas, jornais, blogs e programas televisivos de todo o mundo, no cativar de uma ganância exploratória de geração capital a procura do inevitável banal. MJ, em todos os seus escritos, afirmava que a coletividade individualizada e sadiamente natural tornar-se-ia o fator de modificação de sua sociedade, porém no seu convívio isto se tornara impotente, pois seu isolamento, por sua genialidade banalizada, fazia dele um ser apenas individual, isolado, caricaturado como o deus que pensa e que deve ser seguido. MJ tentava, em vão, se aproximar dos outros, mas sempre era idolatrado, tratado de forma diferente, como algo inalcançável, deverasmente afastado da coletividade humana. Ele resolveu partir sem rumo, porém sua fama avançara por todo o globo e não tinha mais como se isolar em um pequeno grupo de respeito mútuo.  MJ parara de escrever, sua busca limitava-se ao encontrar alguma comunidade que o distinguisse por inteiro, como pares que não considerassem seus escritos e teorias como algo fora do normal, para que pudesse trazer seu estado humano de volta ao seu corpo, a sua mente. Quatro anos “perdidos”, e MJ encontrou relato de um grupo cambojano, na internet, na mídia que tanto o incomodava, que praticava um tipo de liberdade limitada que postava a igualdade absoluta dos semelhantes em detrimento de sua própria existência, de seu corpo, não passando a forma de pensar como absoluta, mas sim a carne, a naturalidade da vida animalesca como o principio de paridade. MJ não acreditava friamente neste sentido, no entanto via neste intuito uma forma de compartilhar suas buscas, de poder atingir um novo principio que há tempos era-lhe negado: ser novamente humano. MJ partiu, cego, surdo e mudo, para o Camboja. Sua nova revolução era uma busca que não poderia ser apenas a mesma, aquela que o conduzira para um patamar de gênio, de superior, de o fora de contexto, ele desejava retornar, retroceder, se fosse o caso, a um estágio de visão colonialista primitiva. MJ queria ser doutrinado, queria ser um mártir de sua espécie, com o simples intuito de ajudar a todos os seus irmãos no sentido de não ser alguém que ele havia se tornado. Em quatro anos de doutrina cambojana e de desaparecimento total, MJ resolveu reaparecer com um novo livro, que duas semanas depois era chamado de a nova bíblia, mesmo sem ter sido lançado ou lido. MJ, se utilizando de sua posição de ídolo, decidiu que seu livro seria publicado por uma editora cambojana, da comunidade a qual agora fazia parte, e que teria uma edição absolutamente limitada ao número de lideres mundiais que faziam parte do conselho de segurança da ONU, e que seu lançamento deveria ser feito, única e exclusivamente, no quando da próxima reunião de tal conselho. Obviamente, apoiado por um consenso mundial, nenhum empecilho foi lhe criado, pois, apesar do desaparecimento, MJ era o grande pensador, o grande conselheiro dos conselheiros, o que havia gerado um sentido de comunhão entre os homens em seus escritos. MJ editou 16 livros, um para cada um dos cinco membros permanentes do conselho, representados pelos seus presidentes (USA, França, Reino Unido, Rússia e China), um para cada um dos dez membros rotativos do mesmo, também representados pelos governantes dos países em representação, e um para ele mesmo, que fazia questão de realizar a primeira leitura. O livro era daqueles que ficavam de pé, na vertical, e aparentava possuir o conhecimento dos conhecimentos, dada a personalidade histórica e única de MJ. No dia do lançamento, MJ fez questão de convidar, pessoalmente, os maiores membros da imprensa mundial, que deveriam ser representados não por seus jornalistas, mas pelos próprios proprietários dos veículos que, acreditando ser um grande privilégio, compareceram em massa, sem faltas, mesmo sabendo que não teriam o direito ao livro tão desejado. Reunidas cinqüenta e cinco pessoas, entre lideres mundiais e “donos do que se vê no mundo”, na sede da ONU, MJ Chegou e distribuiu os livros, afirmando que nenhum deveria ser aberto antes que o mesmo autorizasse e que todos deveriam seguir seus procedimentos se não quisessem gerar uma grande catástrofe. Os líderes, atentos aos dizeres de seu “adestrador/pensador”, seguiram os passos necessários, e MJ pediu-lhes que observassem apenas a capa e que depois, sutilmente, abrissem a primeira página sem ultrapassá-la de forma alguma. Na capa nada existia, apenas o branco, que, para os mais atentos e orientais/orientados, significava o luto da humanidade exposta em sua alma de pensador.  No prefácio, única e primeira página escrita, MJ afirmava que para concretizar sua humanidade todos os homens, inclusive ele, deveriam descobrir o grande segredo, que só poderia ser revelado pela própria curiosidade de todos os leitores, e que este segredo mudaria, ao menos em principio, todas as suas vidas pessoais e, quem sabe, posteriormente, a vida de todo o mundo. Ainda, ele afirmava que esta mudança era de escolha, e para realizar esta escolha todos deveriam mudar de página, mudança esta, que como nos grandes livros, que são optativos na relação de ler ou não ler a próxima página, deveriam ter direção própria.  Como em uma decisão do conselho de segurança, MJ sugeriu uma votação que promovesse a unanimidade ou não daquela abertura, reafirmando que a leitura da próxima página poderia mudar, realmente, a vida de todos, promovendo a grande mudança de suas humanidades. Intrigados pelo sentido de conhecer e deter o grande segredo da humanidade, os cinco membros permanentes, seguidos por todos os outros ali presentes, resolveram, sem votos contra, abrir a próxima página que revelaria o grande segredo filosófico humano. Decidida a questão, MJ pediu concentração para o adentrar da nova realidade e sugeriu que todos fizessem um contagem regressiva do dez ao zero, como nos lançamentos de foguetes da NASA, abrindo, simultaneamente, a segunda página, todos aos mesmo tempo. Ao chegar ao zero, ouviu-se uma grande explosão. A página dois do livro branco do luto de MJ era um dispositivo de bomba que vitimou todos os grandes líderes mundiais na busca de uma nova trajetória de vida para a humanidade. MJ deixou escrito no Camboja, e para ser distribuído por todos os espaços possíveis, reproduzindo, e não criando, a frase de seu grande ídolo igual Nietzsche: “o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.” Ludibriados por aquele pensamento, os grandes lideres mundiais, dez horas depois, já acordados, perceberam que a segunda página do livro não passava de uma magia cambojana de encantamento, acompanhada de uma caixa de música que induzia os observadores a ter tal pensamento bombástico, seguido pelo sentimento de visão do céu, no qual absorviam a frase do filólogo europeu sendo distribuída por toda a terra. Depois do susto, todos viram MJ deitado ao chão, vestindo uma camisa, ele sim morto, com os dizeres nela escrito: “espero que meu fantástico martírio artístico sirva de visão para uma nova humanidade.”

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Um comentário que merece ser lido

25 06 2009

     Realmente dá gosto editar o Joaseiro.com. Mesmo quando o tempo nos falta e passamos alguns dias sem postar, eis que os comentaristas continuam as discussões, enriquecendo o conteúdo do blog e nos incentivando a continuarmos o trabalho. É muito bom ter esse retorno de vocês, leitores. Atualmente, uma boa discussão sobre cultura de massa e arte vem se travando no post “Programação da Expocrato 2009″, algo que vale a pena ser lido, pela qualidade dos questionamentos e argumentações expostas. Outro comentário fantástico que nos chamou a atenção foi o do [colunista] Franzé Matos, acerca do conto de Guilherme Patriota postado logo mais abaixo. Franzé sintetizou em poucas linhas grandes reflexões sobre a individualidade humana, os valores nos dias de hoje e banalização de vários aspectos da vida do homem moderno. Reflexões assim merecem ser lidas por todos e, por isso mesmo, reproduzimos o comentário aqui na página principal.

     Aproveitamos a oportunidade em que falamos diretamente aos leitores para agradecer ao Sr. José Gondim, nosso leitor de Fortaleza que nos enviou email elogioso. A ele, nosso forte abraço. E também agradecemos a Luciano Sá, Assessor de Imprensa do Centro Cultural do Banco do Nordeste, que ‘descobriu’ nosso site e agora manda diretamente para o nosso email a programação dos eventos do CCBN. Comprometemo-nos em continuar a divulgar a valorosa a agenda do CCBN, especialmente a do Cariri.

Joaseiro.com

     “O sentimento de angústia no mundo de I é também o meu. Não entendo porque uma pessoa se torna “massa”. Uma pessoa é todo um mundo, mas agimos hoje de maneiras tão semelhantes que tornamo-nos “massa”. 6 bilhões e não mais existem vanguardas? Artistas espetaculares? Grande filósofos? Que contradição é essa?

    Acredito justamente no oposto: há muito mais arte, muito mais literatura, muito mais diversidade que em qualquer época. Mas pela quantidade de novo que a todo segundo surge, torna-se tudo banal demais? E por quê?

     Quantificamos, categorizamos, distinguimos, criamos padrões. É verdade, facilita mais a vida e a ”mudança que cada ser pode dar para seu habitat”, mas aonde isto está nos levando? Literatura é banal, filosofia banal, arte é banal, saber a cada segundo o que ocorre em todo o mundo é banal, destruir a natureza de todo o planeta é banal, quase duas dezenas de países com bomba atômica é banal, a morte é banal, árvore banal, animal banal, tudo banal? Para que viver assim? Se banal tournou-se a vida? Que grande caminho para onde fomos levados.

     O novo é a constância, não mais a ruptura. O “sistema” de hoje vive e se mantém da produção e consumo deste novo. E ele é, antes de virar ruptura, trazido para o seio do sistema como produto que o próprio sistema possibilitou. Nosso pensamento vive sobre uma única lógica. É preciso reverter a própria lógica. Pois a lógica influencia todos nossos pensamentos e ações. E mudarmos os pensamentos e ações e não refundarmos a lógica de onde eles surgem, de que adianta? É muito maior e mais complexo. Vivemos no mundo que é um grão de areia e esquecemos de todo o resto. Em nosso entorno há quatrilhões e quatrilhões de quilômetros pelo universo. Olhando para a mesa a sua frente ela fervilha num movimento incessável e achamos que ela está parada.

    Radicalidade realmente. Precisamos de um grande gole, urgente.”

 Franzé Matos





Conto da Semana

21 06 2009

Recife, 19 de junho de 2009.

“A história de toda a sociedade que existiu até agora é a história da  luta de classes”

(Marx & Engels)

Sua Própria classe o Absorverá

Por Guilherme Patriota

     Por vezes, nos sentimos tão sós que deixamos de acreditar que qualquer coisa venha a acontecer de forma real fora de nosso próprio organismo. I era um filósofo, um cara que realmente se preocupava com interrogar os sentidos de sua vida e do universo, sem necessariamente ter que se aconselhar com Sócrates ou Platão, inclusive se portando sempre no movimento contrário, acreditando friamente na nunca e não existência orgânica destes indivíduos. I trabalhava numa repartição pública, mas chegava cotidianamente a sua casa, no pós labor, com a mesma questão na cabeça: “para quê serve o trabalho?” Sua resposta quase sempre apontava para a contribuição de mudança que cada ser pode dar para seu habitat, mas a vagarosa porção encantadora de sua lida diária destruía sua ilusão e retornava ao mesmo questionamento. I sonhava em ser filósofo mesmo, no entanto sua carteirinha do sindicato dos filósofos nacionais não podia ser retirada, pois precisava do diploma e, ainda pior, precisava participar da sociedade como um bom trabalhador que merecesse a justa recompensa do dinheiro para se solidarizar com sua mulher e filhos no sustentar do lar contemporâneo. A vida de I era uma luta de classes celulares, que buscavam se encaixar dentro de seus pensamentos e dentro das logísticas humanas de sobrevivência que teimam por colocar homem frente a homem em embates ideológicos que remetem, erroneamente, as suas próprias formas de vida. I se batia e se debatia com o próprio I, com suas próprias fantasias, que só eram utópicas por um medo filosófico de estar só, mas que o conduzia a mais profunda das solidões: a solidão interna. Depois de trinta e quatro anos de serviço público, já com seus filhos formados na filosofia advinda das academias e com seus devidos e justos sentidos financeiros resolvidos, I resolveu abandonar o trabalho sem dar satisfação alguma ao Estado, partindo para a grande empreitada de sua vida: não fazer nada que exercitasse seus músculos, guardando toda sua energia para delinear um método de vivência que conduzisse seu organismo a uma reação inumana que desencadeasse uma interrogação constante na mente daqueles que o observassem. I ficou dentro de casa por 380 dias, e a pressão do mundo batia a sua porta todas as horas. Eram contas, amigos, o estado, a polícia, os vizinhos, e I só conseguia fazer o mesmo questionamento: “Para quê serve o trabalho?” Incomodado pelo incômodo de todos que visitavam seu refúgio para lhe pedir satisfação quanto as suas relações sociais, I resolveu partir sem rumo, partir para um lugar que não fosse lugar e que não fosse fixo, mantendo-o, assim, sempre estranho por onde passasse. Para satisfazer a vontade de seu futuro, I resolveu criar uma caixa postal, que iria ser aberta quando de seu falecimento, para que pudesse enviar textos diários relatando o que ele tinha escrito em cada um daqueles dias que sobraram de seu viver, que seriam lidos como a experiência de um filósofo em busca. Em sete anos de peregrinação, I percorreu todos os continentes, visitando indústrias, sindicatos, ruas, praças, passeatas, comícios, florestas, rios, mares, bares, escolas e tudo mais, sempre anônimo e sempre tentando encontrar respostas para possíveis perguntas que pudessem habitar em sua memória, de acordo com a sensibilidade depositada nas variáveis circunstâncias percorridas. I foi encontrado por seus filhos, pela manhã, na porta de casa, deitado, vestido com a mesma roupa com que tinha saída há sete anos, com as duas mãos sobre o peito, numa delas a chave da caixa postal e na outra uma folha de papel rabiscada. I faleceu com um enorme sorriso, fazendo com que seus filhos não sofressem e compreendessem que sua busca havia terminado/reiniciado. Abriram o papel que estava em sua mão e viram que seu pai deixava, por escrito, os meios legais para que os filhos tivessem acesso à caixa postal que estava situada no correio local. No mesmo instante, antes mesmo de cremar o corpo do pai, os jovens se encaminharam para o correio e retiram todas as cartas. Das duas mil quinhentas e cinqüenta e seis cartas encontradas naquele local, duas mil quinhentas e cinqüenta e cinco registravam o mesmo texto: “Para quê serve o trabalho?” No entanto, na última carta, I expunha o seguinte texto: “O homem percorre toda a sua vida acreditando estar buscando algo que é seu, e por vezes percebe que sua grande busca foi cega, todavia não deve parar de buscar. Desde que me vi como homem, como parte deste grande ser que nos absorve, tornei-me uma criatura intrigada com um único questionamento: Para quê serve o trabalho? Mas não achei resposta; encontrei respostas volúveis ao meu perceber, ao meu raciocinar. Mesmo assim mantive minha busca, que não gerou nenhum tipo de arrependimento. Quanto ao trabalho, relaxa! Sua própria classe o absorverá.”

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Poema da Semana

21 06 2009

Por Franzé Matos

Na relação com o outro

Tome cuidado, mas mantenha a tensão

As marcas de um diálogo

Ficam incrustadas nas palavras ditas

 

Fales sempre de forma valente

Buscando na mente a idéia esguia

Que transformam o latente em via a se pensar

 

Tome cuidado com o que desejas

Nesta peleja pelo que buscas

Podes encontrar a guerra

E na esfera deste embate

Podes sentir saudade da paz que não querias

 

Falar com outro

Já é um confronto

Em que sentidos se chocam

Desde o abraço que anuncia

A aproximação de dois mundos

Onde as diferenças alheias

São incontáveis como grãos de areia

Que na natureza ainda podes contar.

 

Buscamos conversar

Para encontrar e conhecer nossas verdades no

Pois sabes bem, como é difícil caminhar sozinho

A relação com o outro é imprevisível

Um encontro com o invisível

Um universo de diferença

Que nos faz evoluir como humano

Reconhecendo o engano

Na impossibilidade de se reconhecer sozinho.

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Conto da Semana

14 06 2009

Recife, 12 de junho de 2009.

Noites de um solitário e a gata “MI MI”

Por Guilherme Patriota

     Enquanto todos dormiam G apenas cochilava para perceber que realmente ninguém mais estava acordado. A perturbação daquela voz de gato que miava, estampava na cara de G que tudo era em vão, os tempos haviam de acabar e ele só podia apenas esperar. Caminhava do quarto ao banheiro há mais de uma semana e ninguém desconfiava de nada, ora, pois bem, ninguém o via, ninguém o enxergava. G era um poço; um poço sem água, com um balde pendurado por uma corda, que balançava, se assanhava por suas paredes pedindo sempre o líquido que ele não tinha. G já não comia, a ingestão de alimentos significava mais um dia de tortura, um dia sem respostas para tantas perguntas, um dia que se multiplicaria por mais dois ou três, os quais nada viriam, nada refletiriam, nada mudariam do que já estava mudado. Por vários momentos pensou em parar, acreditou que poderia voar, ao invés de caminhar do quarto ao banheiro. Tomou um trago, bem forte, imperceptível a todos aqueles que ele acreditava beberem ao seu lado, mas incômodo a digestão. No descer da vodka, G sentiu todo seu organismo em transformação, e deparou-se com o estômago, deformado, cortado, estupidamente ácido no tocar do destilado. G voltou correndo, sugado como uma fita rebobinada que mostra a imagem de trás para frente e com tripla velocidade. Sentiu um cheiro de fumaça; acendeu um cigarro e voltou a caminhar em direção ao suposto banheiro. Parou no corredor, cuspiu toda a parede, e depois, com calma, pediu ao garçom um saquê. Obviamente não foi atendido, e continuou sua caminhada até atingir o vaso sanitário. G estava esquelético e não teve forças para segurar seus óculos que caíram sanitário adentro durante a descarga. Tomou o caminho de volta, outra vez o quarto, o útero, a mãe. Sentiu-se criança, amado, farto de sabores simbólicos que enchem qualquer poço de água, de vinho, de vodka. G já não mais agüentava esperar, resolveu agir, tomar uma decisão que mudasse sua situação, seu dilema. Resolveu não ir ao banheiro, mas esperar que a vontade de urinar fosse certeira e molhasse suas calças para novamente se sentir enxaguado, acariciado pela urina amarelada que se acumulava em seu organismo e que deveras seria expulsa. A urina não veio, G nem mais lembrava. A porta aparentemente entreaberta sugeria a G que alguém estava à espreita, mas resolveu agir sem ação, resolveu esperar para ver se o fim era realmente o início. A porta bateu, G não percebeu e novamente a porta se abriu. G enxergou uma luz ao longe, bem no fundo do corredor que dava para o banheiro, e sua atitude foi de visão, pensou nos óculos, pegou com as duas mãos e pôs o mesmo na face, sobre o nariz, subindo com o dedo indicador, lentamente, a peça inteira até alcançar as lentes aos olhos, então já era tarde, a porta novamente estava fechada. G retirou a peça de seus olhos e forçou a fechadura, abrindo a porta e o zíper ao mesmo tempo. Viu uma torneira derramando água, uma garrafa de coca-cola enchendo um copo, uma fonte das de praça jorrando, uma mamadeira pingando leite e a chuva na janela que a toalha molhava. Não compreendia tanto líquido, mas aquela sensação ainda mais o incomodava, o deixava perplexo, encabulado e direcionado a voltar ao quarto. No fechar da porta viu bananeiras que escoriam pingos da chuva, pingos que molhavam seu rosto, que escorriam por sua barriga, que desciam a sua virilha, que esquentavam sua perna. G sentiu um toque mais forte no ombro, e mais forte foi a sensação de quentura em suas pernas, era como se a realidade do ir vir ao banheiro, que aparentava mais de uma semana, tivesse perdido a noção de tempo. G, muito incomodado, se sentiu acordado por sua mãe, que reclamava: “- Menino! Sempre que você brinca com fogo a noite, você acaba acordando mijado. E o trabalho todo depois fica comigo!” G agoniou-se; penetrou no estágio menos macio do divagar e acabou caindo da cama. Agora, realmente, ouviu “Mi Mi” miando, no chão, ao lado da garrafa de vodka, onde ele havia caído, e teve a nítida sensação de estar acordado: Será?!

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Conto da Semana

7 06 2009

Recife, 06 de junho de 2009.

 O destino por vezes é uma lâmina

Por Guilherme Patriota

     Quando pequeno, E adorava ver seu pai fazer a barba, fosse em casa, fosse no barbearia do poeta ZC. E era fissurado em lâminas, principalmente nas lâminas que não cortavam, não ensangüentavam a pele humana, mas que faziam o seu trabalho sempre pelas mão humanas. E sonhava com a lâmina cortando sua própria barba, cortando as lavouras das terras do Mocambo, sempre imaginando que sua vida seria guiada pelas lâminas. Quando adolescente, seguia a rigor sua fissura, começando a trabalhar como cortador de cana, utilizando sua lâmina afiada para separar a planta da terra e a palha da cana. Logo notou que seu destino não era essa lâmina, que a noção laminada a se estender por sua mente não era nem de longe aquela agora praticada. E resolveu sair dos canaviais e voltou para a casa dos pais, dando reinício aos trabalhos com a lâmina da foice no cortar o capim que alimentava o gado de seu pai. Certa tarde, no sítio Mocambo, E voltava para casa mais cedo e ouvia, no caminho, vários gritos saindo de dentro daquela única casa existente nas redondezas, a dele mesmo. E apressou o passo, querendo logo descobrir que agonia sonora cortava seus ouvidos. Chegando à casa, E encontrou sua mãe, deitada, ensangüentada, com uma lâmina na mão – uma foice -, morta; a frente seu pai, com outra lâmina – outra foice -, também ensangüentado, morto. E perdeu os sentidos, e só acordou dois dias depois, na mesma sala, com os corpos meio decompostos, cheirando além do mal. E não se preocupou com nada, saiu de casa com o que estava no corpo e desapareceu daquela cercania. Ninguém sabia o que tinha acontecido, apenas encontraram os corpos decompostos três semanas mais tarde, e nenhum sinal de E, que havia sumido no mundo. Dez anos depois, na pequena Itapetim, que nos dias de sua tradicional feira – quarta-feira – era ponto de encontro daqueles os quais todos chamavam de loucos na região, que se reuniam para coletar “impostos” através das mais lúdicas e mentirosas fábulas de sofrimento, que entorpeciam a mente de qualquer cristão, forçando-os, mentalmente, a fazerem doações para a sobrevivência daqueles auto-intitulados “cobradores de impostos”, apareceu um novo pedinte/cobrador com características peculiares que chamou a atenção de todos. Ele tinha pernas grandes e andava a contar seus passos, sempre bem largos, perambulando por toda cidade, falando palavras estranhas e, muitas vezes, incompreensíveis até para os mais próximos. O pedinte era estranho, pois seu olhar era tão assustador que fazia todos naquela feira, sem questionar e sem saber o que ele falava, darem valor ao seu pedido, entregando o possível em dinheiro, comida ou sacolas plásticas – que, sempre ao ver nas mãos dos outros, apontava, como que pedindo, e, quando recebido, colocava logo dentro de seus bolsos já estufados de sacolas. Diferentemente de outros semelhantes, que sempre apareciam no dia da feira e logo depois retornavam para suas cidades de origem, o “Passos Largos”, como foi chamado a princípio, ficou na cidade durante a noite e resolveu repousar no coreto da praça superior daquela cidade, bem em frente da igreja, pois lá ele tinha árvores e tinha como se proteger de qualquer situação vinda dos céus (como chuva, ou sol no amanhecer). Itapetim sempre foi uma cidade de curiosos, e logo no amanhecer, quando aquela criatura estranha já caminhava a contar seus passos pela cidade, mendigando um justo café da manhã, seu JR, notou alguma semelhança entre aquele sujeito e seu compadre assassinado anos atrás. Seu JR não mediu esforços, começou a seguir “Passos Largos” tentando alcançá-lo para indagá-lo sobre suas origens e sobre o que ele vinha fazer por ali. Quando o alcançou, seu JR estava apavoradamente cansado, mas ainda disposto a responder a seus questionamentos. Parou na frente de “Passos Largos” e perguntou de onde ele vinha. A resposta foi rápida, no entanto incompreensível, fazendo com que seu JR refizesse o questionamento e pedisse para que a resposta fosse lenta e pausada. Tal qual seu JR pediu foi atendido, no entanto o senhor notou que algo posto na boca de “Passos Largos” impedia o jovem de responder as coisas com clareza. Foi então que ele pediu ao pedinte/cobrador que retirasse aqueles objetos de sua boca para que ele pudesse ouvir claramente as respostas às perguntas que ele estava a fazer. “Passos Largos” retirou quatorze lâminas de barbear da boca, que estavam separadas ao meio, ficando quatorze metades de cada lado. Seu JR, impressionado, perguntou o nome ao jovem, e ele respondeu, agora de forma clara, que se chamava E. Seu JR, reconhecendo o afilhado, tirou a limpo logo toda a história, refazendo assim um novo sentido de bem querer para com seu ente desaparecido, mas ainda querido, e novamente tornou a questioná-lo sobre seu desaparecimento, por onde ele andava e terminou por perguntar o que ele tinha feito de sua própria vida, recebendo de E a seguinte resposta: “– Desde pequeno eu já sabia que minha vida seria guiada pelas lâminas, pois diariamente sonhava com elas, com seus cortes, com seu barbear. Por toda a minha existência juvenil procurei trabalhar com elas, acreditando que descobrindo alguma técnica de manipulação das lâminas eu encontraria a própria resposta de meu destino. No entanto esta minha paixão, este meu guia, entregou meus pais mortos, e sem respostas, e me fez perdido no tempo e no espaço por mais de nove anos. Quando acordei, novamente, para a vida, percebi que existiam várias lâminas dentro de minha boca, parecendo fazer parte de meu corpo, foi então que resolvi aceitar esta condição, pois meu destino sempre foi uma lâmina.”

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Conto da Semana

31 05 2009

São José do Belmonte, 29 de maio de 2009.

 

Um desejo próprio para todos

Por Guilherme Patriota

            Na pequena São José do Belmonte, sertão central de Pernambuco, o poder e o machismo ainda predominavam em pleno século XXI. Neste tempo e espaço, a jovem E lutava contra tudo e contra todos com o sentido de realizar seus sentidos e trilhar um futuro diferente para sua vida, alertando sua própria sociedade quanto aos direitos de todos em escolher seus próprios caminhos. E era filha de pais pobres, que não tinham como criá-la, e morava com seus avós, que apesar da idade tinham uma ligação de criação mais livre para com seus filhos e netos. Com o apoio dos avós, E estudou e sonhou em alcançar a universidade, no entanto todos naquela cercania cobravam da menina uma postura que a direcionasse para ser uma verdadeira mulher, que lá era se casar cedo, ter filhos e tomar conta da casa. A cobrança para E era enorme, ela sofria um isolamento social que a distanciava de todos e começara a criar em sua própria mente, e nas conseqüentes ações, meios de burlar os fatos deste cenário real e empreender seu vôo pelas avenidas da universidade. Demonstrando a todos o desejo de realizar os sonhos de seu povo, E prometeu que iria se casar com H, comerciante de objetos escusos naquela região, mas para isso teria que começar a montar seu próprio enxoval que só se tornaria possível através de seus próprios recursos, dada a situação social de sua família. E foi contratada pela prefeitura para dar aulas de literatura em escolas da zona rural e para recepcionar visitantes que adentravam o Memorial da Pedra do Reino, E tinha um ano para adquirir recursos e corresponder aos desejos que vinham de fora para dentro ou para fazer voar seus desejos que vinham de dentro para fora. Passado o período, E, agora economicamente viável, resolveu que não iria se casar, mas sim patrocinar seu tão desejado intuito de ser uma graduada em letras na cidade de Serra Talhada. Fez o vestibular e adentrou pela primeira vez no campus como uma graduanda, no entanto todos os que puderam prejudicá-la naquela cidade assim o fizeram. Primeiro o prefeito proibiu E de pegar o transporte público noturno que levava os estudantes, 80% homens e 20% mulheres, na sua maioria filhas de grandes comerciantes daquela cidade, para a cidade vizinha, e depois demitiu a jovem dos dois empregos. E insistiu o quanto pôde, mas um acidente no caminhão, transporte ilegal, porém sempre usado naquela região, que a levava para as aulas, fez com que seu dinheiro fosse gasto por completo na recuperação de sua própria vida, trazendo de volta o sentido anterior do casamento e o definhar de seu verdadeiro destino. E, convencida de que ela era o problema, resolveu aceitar seu destino traçado pelos outros e convenceu-se do casamento, mas ainda imaginando que iria convencer seu futuro marido, que tinha posses, mesmo questionáveis, mas posses, a deixá-la concluir os estudos. Casaram-se, e E adentrou em um novo mundo, um mundo de sofrimentos para seu espírito livre, pois seu marido transformou-se em um carrasco dos seus desejos, bloqueando tudo quanto podia no sentido de ele mesmo guiar o caminho da jovem. E agora era uma participante social, isolada psicologicamente de tudo e de todos. Um ano após o casamento, H saia de um bar e foi alvejado por três tiros a queima roupa disparados por um desconhecido, deixando E como única herdeira de uma pequena fortuna de um milhão de reais. Dois anos depois do fato, inaugurava-se naquela cidade a primeira faculdade, que dava acesso gratuito a meninas de baixa renda que obtivessem notas suficientes em sua seleção. Graduada, calejada e com autoestima recuperada E inaugurou seu empreendimento dizendo as seguintes palavras: “- Mais forte que o desejo de homens ou mulheres é o desejo dos sentidos de realização do todo. A partir de um desejo meu, e próprio, que foi motivo de chacota e discriminação de todos que agora matriculam seus filhos em meu estabelecimento, foi possível realizar o grande desejo de uma sociedade: amadurecer seus próprios sentidos e relacionamentos.”

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Uma sensação deturpadora da razão

28 05 2009

Por Franzé Matos

Uma sensação deturpadora da razão

Percorre meu corpo nesses segundos

Em que o mundo parece desabar

Sobre ossos perfurantes

E gritos jorrantes de adrelina e cuspes a jorrar junto com palavras

Manchando de negro o ambiente

E transformando baluartes de negação e concordância

Em uma distância visceralmente enorme de transpassar

Pois entre mundos distintos

Há todo um jogo de instintos

Que a nossa mente e aos outros quer controlar

Sendo material pesado todo esse estado de incompreensão e divergência

E na iminência do embate

No corpo que se debate sob a parede que rui

Com líquidos de tristeza

Em variantes incertezas dos minutos que custam a cessar

Só resta contemporizar

Se por novamente em um altar famigerado

E criticar, criticar e criticar.

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Conto da Semana

24 05 2009

Recife, 21 de maio de 2009.

                 A vida, por muitas vezes, é muito dura, caleja e faz despertar relações que nem sempre têm a serventia necessária e real para os seres humanos. A sociedade e suas teias de diferenças indiferentes criam laços que são passados de pais para filhos, e este passar, quase sempre, contorna o sentido do poder, da ignorância do poder – até do poder imaginado do matar e do morrer.

 Salvando o crime e perdendo a vida

Por Guilherme Patriota  

     Quando criança, a pequena S imaginava que um dia iria crescer e conquistar seus sonhos, como toda garota de dez anos de idade, mas sua trajetória, desde o nascer, programava um destino difícil e um futuro incerto. S era a sexta filha de seu X e dona C, casal de agricultores Itapetinenses que serviam à família P, alta mandatária das lavouras de caju do Sertão do Alto Pajeú. S era uma menina linda, esperta, estudiosa e consciente de sua situação social, no entanto prendada por um novo despertar que pudesse levá-la a uma vida melhor do que os seus pais podiam dar. S tinha dez anos, mas já fazia a 7ª série e tinha uma compreensão de mulher feita, além de um corpo formado e contornado que deixava qualquer adolescente a soltar pipas para o ar. Seu X e dona C moravam na casa dos fundos da grande fazenda PR, e S, assim como eles, se achava gente daquela gente, família daquela família, pois o tratamento que suas seis filhas recebiam naquela grande casa era bem melhor do que os próprios pais davam na sua, assim como relatavam os mesmos. No entanto, S era diferente, e o coronel A adorava colocá-la no colo, dizendo sempre que queria ter uma filha assim, e seu X enchia os pulmões de alegria por saber que tinha criado uma criatura tão linda, doce e inteligente como aquela. O coronel A apropriara-se de S, como quem realmente tivesse uma filha, mas isso deixava dona C encucada, pois desta forma ele nunca tinha feito com nenhuma das outras cinco, mesmo as tratando super bem. Dona C, inocentemente, resolveu perseguir os passos do coronel A, para saber até onde caminhava a bonança daquela situação e acabou por ver o que não queria: o Coronel estava sem roupas e recebia toques de requinte em seu membro reprodutor pela meiga e inteligente S. Dona C não soube como reagir e resolveu não entrar em ação, pois sua subserviência ao marido X acabava por indicar que aquilo era coisa para homens resolver. Dona C voltou para casa indignada, revoltada com sua condição e levada a experimentar seu primeiro amadurecimento real, que não configurava com a realidade que ela imaginava viver. Guardou-se até a noite, depois que já havia coberto todas as suas seis filhas, dedicando um carinho ainda mais especial a S, e esperou até o final da “Hora do Brasil”, quando seu marido chegava à cama, para contar todo o acontecido. Seu X aparentou um descontrole e, primeiramente, ameaçou matar o coronel A, demonstrando para dona C que era pai e que sentia tudo aquilo de forma brusca e nefasta, incorporando a faceta de um vingador, mas que na verdade já estava vingado. Depois de um diálogo conciliador, dona C notou que seu X demonstrara um medo de reação e, para salvar sua família da maior das misérias que é a humilhação, resolveu convencer seu X a não tomar nenhuma medida direta. Amadurecida por este primeiro baque, dona C resolveu que ela mesma daria um fim naquela situação, buscando montar um flagrante que pudesse demonstrar a todos naquela fazenda, da família do coronel até a sua própria, que o coronel era um homem de posses, mas que não tinha uma conduta como a do seu marido. Dona C notou que sempre que S chegava do colégio o coronel A a levava para o curral, sempre dizendo que iria mostrar o futuro para ela, pois o investimento nos cavalos ou na veterinária eram as saídas para aquele criança a posteriori, mas a senhora já compreendia que sentido era aquele. Na primeira oportunidade, dentro desta lógica, dona C chamou todos ao curral, afirmando que acontecia naquele momento um fato realmente inusitado e que ninguém poderia perder. Imaginando que iria desmascarar o canalha de seu patrão, dona C acabou por esfacelar sua vida.  Quando chegaram ao curral, dona C, seu X, a mulher do coronel e seus dois filhos, viram a pequena S se relacionando com o coronel A e geraram um escândalo maior do que a nobre e inocente senhora pudesse programar. Acuado e em defesa, o coronel disse a dona C que estava, na verdade, cometendo um crime, mas que ao mesmo tempo estava salvando a filha de um crime ainda maior, pois seu crime era qualificado e o que o seu X cometia era duplamente qualificado. O coronel explicara, para a despedida da inocência de dona C, que seu X abusava das outras cinco filhas dela cotidianamente e que resolvera tomar parte na situação, pois ele era o coronel e não poderia deixar um fato assim acontecer em suas barbas. Como não tinha outra saída que não fosse cometer os mesmo atos, pois de forma animalesca seu X já havia confessado ao patrão que acreditava que o poder estava nas mãos daquele que resguardasse o sexo ao seu bem querer, resolveu salvar a pequena S de um trauma ainda maior na sua vida promissora, acabando por gerar tal situação. Dona C, quase sem palavras, e antes de cortar seus pulsos com a foice, foi direta no seu texto, que serviu para todos que quisessem ouvir: “- Pedofilia é pedofilia em qualquer lugar.”

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Trazendo o conhecimento do manifesto

20 05 2009

Por Franzé Matos

Trazendo o conhecimento do manifesto

Para o eterno postular de forças em relação

Que produzem o movimento

Em todo momento que pudermos questionar

Aquilo que vemos como unidade

E transformá-la em múltiplos espelhos da realidade

Criando multiplicidades tamanhas

Que fazem chocar minha própria razão

Criando em mim uma negação

Fomentando a contradição do ingênuo flertar

Elevando minha relação sujeito-objeto

Para outro paradigma e começo a compreender

O caminho que devo seguir para que algo de eterno original eu possa contemplar

E praticar na vida sensitiva os frutos desse pensar

Pois refletir sem praticar os conceitos que lhe assolam

É se prender entre medos dos pesadelos vazios

Num torpe medo das reações

Das mesmas sensações que todos os homens também sentem

Que por não refletirem sobre realidades postas

Permanecem expostas sob pano negro invisível

Que esconde sua real vocação

Ser manifestação de mútiplos

Tornando indivisível toda a realidade

E escondendo a verdade

Para uma vida de mentiras sonhar.

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Conto de um parágrafo só

17 05 2009

Recife, 15 de maio de 2009. 

O fantasma do Rio Pajeú

 Por Guilherme Patriota

                No inicio dos anos de 1990, em Itapetim, os pré-adolescentes não tinham muito o que fazer à noite, a diversão mais comum era ir até a praça Rogaciano Leite, que ficava bem no centro da cidade, para se encontrar e criar aventuras que fossem suficientes, mesmo que paradas, para preencher o buraco de tamanha energia gerada pelo organismo de todos nós. A turma era grande, eu, J, R, S, P, B e vários outros, e nos encontrávamos sempre às 19hs, quando já havíamos jantado, para criarmos a aventura do dia. Tínhamos a mania de repetir, até esgotar o sentido, brincadeiras das mais diversas possíveis, mas sempre impulsionados por algo que não fosse normal, ou que, pelo ao menos, não fosse do gosto de nossos pais – até porque dificilmente eles ficavam sabendo o que estávamos aprontando ou por onde estávamos andando. Nesta época, e por um bom tempo, resolvemos brincar de polícia e ladrão, mas não de forma comum, no meio da praça, optávamos por ir até as margens do rio Pajeú, que ficava a mais ou menos um quilômetro daquela praça central, pois lá a visibilidade era pouca e poderíamos dar mais realidade a nossas imaginações. Quando a brincadeira já parecia tornar-se banal, algo inesperado aconteceu. R, após o termino da brincadeira, saiu na frente, parou no meio do caminho de nossa volta, junto a um cercado de animais que havia no meio da estrada de chão, escondeu-se e imaginou que iria dar um susto em todos nós, os outros. No entanto, todos nós chegamos de volta à praça e notamos que R não tinha vindo conosco e daí começamos a viajar no que teria acontecido. Antes mesmo de montarmos histórias mirabolantes sobre o desaparecimento de R, avistamos o mesmo correndo em nossa direção, gritando, chorando. R chegou pálido, quase sem voz. Parou, sentou-se ao nosso lado, quando todos, aí sim concentrados, perguntávamos para ele o que tinha acontecido, por que ele tinha demorado e coisas tais. R, nessa noite, virou motivo de risos, pois nos informara que tinha visto um fantasma, daqueles clássicos, todo de branco, e o mesmo tinha lhe dito, enquanto ele se urinava de medo, que nós não mais deveríamos voltar a brincar por lá, nas areias do rio. R virou piada por uma noite e um dia, mas nossa curiosidade era gigantesca e sabíamos que no outro dia voltaríamos a brincar por lá de forma ainda mais instigada, pois agora, além dos nossos inimigos de brincadeira, fossem a polícia ou ladrões, tínhamos um fantasma da mente de R para enfrentar. No dia seguinte o grupo já não era mais o mesmo, vários outros amigos de escola apareceram para a aventura, dado que na escola tínhamos passado o dia “tirando onda” da cara de R – o menino que tinha medo de fantasmas – e ninguém, apesar de não acreditar, queria perder esta brincadeira por nada. Desde o momento em que saímos em direção ao rio, todos começaram a pregar peças uns nos outros. Alguns saíram na frente e fizeram susto em nós, os outros, mas nada que pudesse demonstrar um realismo temeroso com o qual R chegou a nossas vistas na praça no dia anterior. Quando convencidos de que não havia fantasma algum, resolvemos dar início a brincadeira, que no fundo era o verdadeiro foco de estarmos ali. Dividimos os times, sorteamos quem seria polícia e quem seria ladrão, e começamos a correria. O grupo dos ladrões que, naturalmente, saem na frente e em fuga, correu em direção a uma pedra que aparecia na margem contrária do rio, e que era lugar comum de esconderijo, pois muitos não tinham coragem de atravessar o rio à noite, apesar dele não ter quase água. No quando deste atravessar, antes de chegar aos pés da pedra, avistamos aquele pano branco flutuante e iluminado sobre a pedra, gritando “saiam daqui, saiam daqui”. Foi a visão do inferno. Era moleque chorando, e guri gritando, eram todos desesperados, aflitos com aquela aparição inesperada que confirmava a verbalização do dia anterior de R. Chegamos à praça em questão de segundos, todos pálidos, com medo realmente, e sem entender como aquilo poderia existir. No correr e no fugir daquele polícia e ladrão, na verdade correndo do primeiro e único fantasma que vi na vida, vários ficaram feridos, cortados pelo arame farpado que cercava toda aquela área. Outros, ainda mais feridos, haviam descido, forçadamente, o barranco abaixo, machucando braços e pernas de uma forma tão grosseira que tiveram de ir ao hospital fazer curativos e se consultar com o plantonista para terem a certeza de que não haviam quebrado nenhum osso. Desta forma, a notícia se espalhou pela cidade, e todos os nossos pais ficaram sabendo do acontecido, mas, obviamente, não deram crédito à aparição fantasmagórica. Passamos uma semana sem aparecer por lá, no entanto, na primeira investida de S, que era mais afoito, resolvemos tirar a “prova dos nove”, querendo outra vez ver para crer. Neste ínterim ZJ, que era pai de P e também policial, havia abandonado a sua patrulha noturna para patrulhar nossos passos, pois queria entender como seu filho tinha se machucado tanto. Paciente que era, ZJ esperou toda aquela semana nos vendo ficar na praça de conversa fiada, mas não arredou o pé de nossa cola até que fôssemos outras vez para algum lugar estranho, como era o caso de nosso rio das brincadeiras. Saímos da praça temerosos, mas dispostos a encarar o fantasma de uma forma ou de outra, querendo conversar com ele para saber qual era o corpo que tinha deixado sua alma, ou seja, saber se ele era o espírito de seu ZS que tinha sido dono daquelas terras em épocas passadas. Quando chegamos ao rio vasculhamos toda a área, buscando encontrar aquilo que nunca quisemos e ficamos com o nunca achar, pois enquanto caminhávamos nenhum sinal do fantasma apareceu. Resolvemos sentar na beira do rio que ficava do lado da cidade, como que esperando o momento de outra aparição. O tempo passou, e quando já nos levantávamos para irmos de volta à praça, frustrados com a não aventura daquela noite, enxergamos novamente o pano flutuante e iluminado vindo em nossa direção. Ficamos parados o quanto deu, mas nossas pernas começaram a tremer e saímos em retirada, correndo, com aquela aparição a nos perseguir. Nosso medo era tão cego e grande, e a escuridão era sempre tanta, que nunca percebíamos que sempre alguém estava faltando nos momentos em que o fantasma aparecia, e, de repente, no meio da perseguição, ouvimos dois tiros e gritos: “- Para, filho da puta! Para!” Era o policial ZJ, que estava a nossa espreita e que agora perseguia o fantasma a nos perseguir. Enquanto pulávamos a cerca, vimos a luz do fantasma desaparecer, e vimos o pano cair no chão e ouvimos aquela voz conhecida afirmando: “-Sou eu painho! Sou eu!” E ZJ, tirou seu chicote, que sempre estava no cinturão e começou a gritar e a chicotear ao mesmo tempo, dizendo: “- Sou eu o quê, seu cabra! Você num é fantasma, então vai ter que apanhar para ganhar vida!” Desta feita, estava descoberta a aparição. O fantasma não passava de um lençol branco com uma lanterna por abaixo que cobria, em revezamento, o corpo de P num dia e o de B no outro. Eles sempre deixavam o equipamento fantasmagórico enterrado, dentro de um saco, junto à pedra na outra beirada do rio, aproveitando-se da escuridão não para fugir no polícia e ladrão, mas para se transformarem naquela aparição. Para P, flagrado pelo pai por dois crimes familiares, brincar onde não podia e enganar toda uma cidade, sobrou o castigo de não mais poder ir para a Praça Rogaciano Leite por um ano inteiro, tendo cumprido a pena por completo. Já B, filho de JC, pai que foi avisado na mesma noite sobre o acontecido por ZJ, teve como punição imposta por seu pai criar uma nova aparição fantasmagórica que pudesse enganar seus outros três irmãos, obviamente que com a ajuda de todos nós.

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Não se mistura fé e embriaguez

10 05 2009

Por Guilherme Patriota

     Quando penso em reflexões sertanejas, pois sertanejo que sou, sempre me vem na memória a fé de nosso povo. E não falo aqui apenas na fé que nos faz viver, mas também na fé que cega, na fé que desvirtua sentidos e, por vezes, nos faz morrer. Na estratégica cidade de Afogados da Ingazeira, no Pajeú Pernambucano, ninguém poderia ter mais fé do que dona A, mãe de gêmeos que, segundo a mesma, nasceram de um milagre de Padre Cícero do Juazeiro. Quando D e E vieram a vida, dona A tinha apenas sete meses de barriga e estava num pau de arara que se acidentou, dirigido por seu marido, a caminho de Juazeiro do Norte, a caminho de receber a benção que sua fé indicava para o recebimento dos seus filhos. Mesmo com o acidente e a gravidez, dona A escapou ilesa e deu a luz a dois filhos homens rezando, atribuindo aquela sorte ao santo cearense e gerando uma promessa que mudaria para sempre a rotina de sua vida. D e E, apesar do inicio de vida difícil, deram continuidade a viagem até a “terra santa” dos sertanejos e foram abençoados pelas palavras de sua mãe ao santo padre, com o sentido de voltarem, os dois, ao horto – santuário do santo padre – quando completassem quinze anos de idade para levar oferendas ao condutor de suas chegadas na terra. Na casa de dona A todos eram devotos e, além disso, sobreviviam da fé dos mesmos e dos próximos, dado que seu J era dono de pau de arara que fazia mensalmente o caminho de Afogados até Juazeiro para levar romeiros pernambucanos à cidade cearense. Dona A nunca deixou D e E irem com o pai em suas viagens, mesmo os dois manifestando o seu desejo de ir, pois para ela este desejo era a manifestação tentadora de sua fé e os dois só deveriam ir no momento certo, na hora certa de cumprir sua missão: pagar a divida prometida no instante de seus nascimentos, tendo resistido ao desejo de tempos anteriores como penitência de gratidão pelo milagre realizado. Seu J, desde o acidente que fez nascerem seus filhos, parou de beber e nunca mais teve qualquer problema na estrada, tendo a fé certeira de que tinha de viver para levar seus filhos de volta ao Juazeiro para finalizar o sentido da graça conseguida. E como é honesta a fé do povo sertanejo, assim como é honesta sua fidelidade ideológica, todos naquela casa diariamente rezavam em agradecimento e para que todos tivessem vida ao menos até o momento de irem reunidos ao santuário do Juazeiro do Norte. Quando faltava uma semana para a data prometida, seu J e dona A avisaram a todos os romeiros da cidade que nesta viagem não levariam ninguém, pois esta era uma viagem prometida e apenas a família reunida iria seguir em romaria. Fizeram todos os preparativos, compraram velas, comida, roupas novas, sapatos e até uma câmera fotográfica para registrar aquele dia tão esperado por todos. Ao amanhecer de um dia de novembro de 2008, entraram todos no pau de arara, seu J ao volante, com dona A e a filha mais velha ao lado, e os quatro filhos homens em cima – os gêmeos e os outros dois mais jovens. Chegaram a Juazeiro no “pingo do meio-dia”, como eles mesmos falavam, e não perderam tempo, direcionando-se retos ao horto para efetivar o pagamento de sua promessa. Chegando a Juazeiro se curvaram aos pés da estátua do santo padre em agradecimento e entraram em um êxtase daqueles que só a verdadeira fé pode gerar. Tiraram fotos, visitaram o memorial, a antiga casa do Padre Cícero e viveram uma felicidade momentânea que era suficiente para toda uma vida. Para seu J e dona A, mais do que para qualquer um, aquele era um momento de comemoração e, no finalzinho da tarde, adentraram em um restaurante para realizarem a “última ceia”, antes de iniciarem a jornada de volta a sua casa. A felicidade era tanta que seu J, extasiado, pediu de cara uma pinga e depois outra, e depois mais outra por fim, passando despercebido o sentido do volante, da direção. Embriagados de fé e vida, ninguém viu nada, ninguém falou nada, ninguém questionou nada e, depois de fartos pela comida, partiram de volta para sua terra natal. Mas a viagem foi curta. Seu J, quinze anos sem ingerir uma gota de álcool, cochilou na estrada e desceu com o caminhão barranco abaixo, levando consigo a vida de toda a sua família. Ao amanhecer, o policial rodoviário, em entrevista a jornais cearenses, afirmou categoricamente: “- Havia sinais de embriaguez no motorista, no entanto a fé dessa gente era tanta que todos morreram sorrindo e segurando uma imagem de Padre Cícero nas mãos. Portanto, e mesmo com fé, não se mistura bebida e direção!”

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Caso ZH

3 05 2009

Recife, 29 de abril de 2009

A imponência econômica contra a natureza real

Por Guilherme Patriota

                ZH era um típico político do sertão nordestino que havia perdido seu curral eleitoral, mas que tinha tido tempo suficiente para conquistar recursos escusos que realizaram um sonho da maioria dos sertanejos: morar na Avenida Boa Viagem, de frente para o mar, da capital pernambucana Recife. Peculiarmente, ZH e sua esposa B adoravam entrar no mar às 16hs, diariamente, para transar, transformando aquele ato tão comum para qualquer casal em um ato teatral para vários adolescentes que sempre freqüentavam aquela mesma praia naquele mesmo horário. Diariamente, assim como ZH e B, vários, e cada vez mais vários, jovens se juntavam às 16hs, convidados por panfletos vocais que passavam de adolescentes para adolescentes, para entrarem no mar e assistirem aquele espetáculo erótico que, com certeza, não era indicado para menores de dezoito anos. ZH e B, com seu fetiche molhado e salgado, não se apercebiam que eram observados diariamente, e apenas comentavam, ao sair do mar, que o número de jovens que freqüentavam a sua área de banho estava sempre aumentando, contrariando as indicações de periculosidade inseridas diariamente nos jornais da cidade quanto aos banhos de mar naquela região. A notícia se espalhara por toda zona sul, atraindo diversos observadores. Ambulantes, que anteriormente apenas vendiam cervejas, água de coco e churrasquinho, agora também alugavam binóculos e lunetas que possibilitavam uma melhor visão do espetáculo, fazendo aumentar a renda familiar dos menos favorecidos que moravam nas diversas favelas que circulam o bairro de Boa Viagem. Outros jovens, mais sofisticados e interligados com a modernidade digital, levavam suas câmeras de alto alcance para registrarem o ato e para postarem aquela aventura na internet, gerando uma cadeia de comunicação internacional, trazendo outra vez ZH para mídia, só que desta vez não como político corrupto, mas como senhor de idade que realiza atos sexuais com sua companheira, diariamente, na praia de Boa Viagem. O fato tomou uma dimensão impressionante, e agora ZH e B eram celebridades internacionais, eram cumprimentados nas ruas, eram observados por outros senhores de sua geração como heróis e muito mais como indecentes, mas, na verdade, não sabiam por que – até imaginavam que isto se dava pela popularidade alcançada por seu filho, que era dono de uma rede de lanchonetes, e que não tinha tempo de fazer outra coisa que não fosse trabalhar para crescer seu negócio, perdendo assim a possibilidade de assistir ao espetáculo mais comentado na cidade de Recife.  A sociedade tradicional nordestina começava a se indignar com aquele fato, e autoridades mais conservadoras resolveram efetivar um flagrante de atentado ao pudor, afirmando que suas crianças não poderiam ir à praia normalmente e assistirem a um ato tão indecente de forma tão aberta. Reuniram imagens da internet, coletaram depoimentos de observadores comuns, acionaram a policia e a imprensa e marcaram a realização do flagrante para uma terça-feira, sempre no mesmo horário. ZH e B, alheios ao mundo digital, e mais preocupados com sua própria vida, saíram de casa no mesmo horário, com o mesmo destino e com a mesma sensação. Observaram que a maré estava cheia, adentraram no mar e deram continuidade a sua rotina, que era teatral para muitos, e que agora se tornara criminosa para outros. Neste momento estavam a postos vários observadores, como de comum, a polícia, a representação do juizado, a imprensa e salva-vidas, mas ninguém imaginava que outra coisa que não fosse aquela prisão em flagrante pudesse acontecer com o sentido de questionar a sociedade pernambucana. De repente, antes de todos poderem prender o casal que insultava a dignidade social com a prática de sexo em público, observou-se o desespero de B, que acenava bruscamente para todos, gritando e implorando que alguém viesse ajudá-la. B segurava ZH nos braços, e sua agonia era tanta que os observadores perceberam que algo de anormal acontecia naquele instante e naquele local, adentrando vários ao mar na tentativa solidária de ajudar aquele casal. Os primeiros a chegar, observaram que ZH sangrava e B logo afirmou que seu marido havia sido atacado por um tubarão – o bicho tinha trucidado o pênis do pobre homem. O desespero se estendeu a todos, e aquela mesma corrente que informava que um casal transava diariamente na praia agora informava a todos sobre um novo ataque de tubarão. A polícia, os salva-vidas e a imprensa, preocupados com a moral de uma sociedade, e que estavam ali para flagrar um ato inadequado de conduta social, acabaram por flagrar um ato ainda mais inadequado e que é deixado de lado diariamente. Depois do socorro de ZH, B tornou-se mais uma vez celebridade, adentrando a casa de todo um país através dos telejornais, dando o seguinte depoimento: “- O Pênis do meu marido era igual ao porto de Suape, majestoso, imponente, mas despreparado para a cadeia alimentar dos tubarões que residem no litoral pernambucano.”

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Mais poesia

1 05 2009

No dia do nosso aniversário, postamos a bela instigante poesia de Franzé Matos, nosso grande parceiro desde o início do blog.

 

Sou um sofista. Produzo minha doxografia em poesias

Que virtuam e desvirtuam o pensamento de tanta gente

Pois nossa razão baseada em projeção não privilegia a verdade

Mas um mundo de virtualidade que cremos como a única forma possível de se pensar.

Esquecemo-nos das grandes dúvidas que forma o homem

Inebriados por juros, mercados, paixões e das bolsas em colapso

Ai meu deus! Quanto dinheiro eu perdi?

Por isso a filosofia é salutar

Pois nos faz rememorar

Da dádiva que é ser um ser racional

E poder superar o animal que a todo momento tenta nos dominar

Devemos rememorar o sentido que nossas efêmeras vidas devem trilhar

Para fazer frutificar em campos de selvagerias e futilidades

Sem se preocupar com as fatalidades que tal busca lhe trará

Pois enunciar pensamentos idiossincráticos sobre a vida de outro ser pensante

É divagar por preconceitos incessantes

E ser queimado em fogueiras

Já não as de madeira, mas de risos irônicos e flertes atônitos

Que transformam toda contraposição

Em uma simples memória

Que aos poucos se evapora

Pois outra bolsa acabou de falir.

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